O Dia
Nacional da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro no Brasil e é
dedicado à reflexão sobre a inserção do negro nasociedade brasileira. A semana dentro da qual
está esse dia recebe o nome de Semana da Consciência Negra.
A
data foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. O Dia da
Consciência Negra procura ser uma data para se lembrar a resistência do negro à
escravidão de forma geral, desde o primeiro transporte de africanos para o solo
brasileiro (1594).
Algumas
entidades como o Movimento Negro (o maior do gênero no
país) organizam palestras e eventos educativos, visando principalmente crianças
negras. Procura-se evitar o desenvolvimento do auto-preconceito, ou seja, da
inferiorização perante a sociedade.
Outros
temas debatidos pela comunidade negra e que ganham evidência neste dia são:
inserção do negro no mercado de trabalho, cotas universitárias, se há
discriminação por parte da polícia, identificação de etnias, moda e beleza
negra, etc.
O
dia é celebrado desde a década de 1960, embora só tenha ampliado seus eventos
nos últimos anos.
Dia
da Consciência Negra
História do Dia da Consciência Negra, cultura afro-brasileira, importância da data, quem foi Zumbi dos Palmares, 20 de novembro
História do Dia da Consciência Negra, cultura afro-brasileira, importância da data, quem foi Zumbi dos Palmares, 20 de novembro
História do Dia Nacional da Consciência Negra
Esta data foi estabelecida pelo projeto lei número 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003. Foi escolhida a data de 20 de novembro, pois foi neste dia, no ano de 1695, que morreu Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares.
Esta data foi estabelecida pelo projeto lei número 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003. Foi escolhida a data de 20 de novembro, pois foi neste dia, no ano de 1695, que morreu Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares.
A homenagem a Zumbi foi mais do que justa, pois este personagem
histórico representou a luta do negro contra a escravidão, no período do Brasil
Colonial. Ele morreu em combate, defendendo seu povo e sua comunidade. Os
quilombos representavam uma resistência ao sistema escravista e também um forma
coletiva de manutenção da cultura africana aqui no Brasil. Zumbi lutou até a
morte por esta cultura e pela liberdade do seu povo.
Importância da Data
A criação desta data foi importante, pois serve como um momento de conscientização e reflexão sobre a importância da cultura e do povo africano na formação da cultura nacional. Os negros africanos colaboraram muito, durante nossa história, nos aspectos políticos, sociais, gastronômicos e religiosos de nosso país. É um dia que devemos comemorar nas escolas, nos espaços culturais e em outros locais, valorizando a cultura afro-brasileira.
A criação desta data foi importante, pois serve como um momento de conscientização e reflexão sobre a importância da cultura e do povo africano na formação da cultura nacional. Os negros africanos colaboraram muito, durante nossa história, nos aspectos políticos, sociais, gastronômicos e religiosos de nosso país. É um dia que devemos comemorar nas escolas, nos espaços culturais e em outros locais, valorizando a cultura afro-brasileira.
A abolição da escravatura, de forma oficial, só veio em 1888. Porém, os
negros sempre resistiram e lutaram contra a opressão e as injustiças advindas
da escravidão.
Vale dizer também que sempre ocorreu uma valorização dos personagens
históricos de cor branca. Como se a história do Brasil tivesse sido construída
somente pelos europeus e seus descendentes. Imperadores, navegadores,
bandeirantes, líderes militares entre outros foram sempre considerados hérois
nacionais. Agora temos a valorização de um líder negro em nossa história e,
esperamos, que em breve outros personagens históricos de origem africana sejam
valorizados por nosso povo e por nossa história. Passos importantes estão sendo
tomados neste sentido, pois nas escolas brasileiras já é obrigatória a inclusão
de disciplinas e conteúdos que visam estudar a história da África e a cultura
afro-brasileira.
Você sabia?
- 27 de outubro é o Dia Nacional de Mobilização em Prol da Saúde da
População Negra.
Dia da
Consciência Negra e o herói chamado Zumbi
Zumbi líder do quilombo dos Palmares
Zumbi foi o grande líder do quilombo
dos Palmares, respeitado herói da resistência antiescravagista. Pesquisas e
estudos indicam que nasceu em 1655, sendo descendente de guerreiros angolanos.
Em um dos povoados do quilombo, foi capturado quando garoto por soldados e
entregue ao padre Antonio Melo, de Porto Calvo. Criado e educado por este padre,
o futuro líder do Quilombo dos Palmares já tinha apreciável noção de Português
e Latim aos 12 anos de idade, sendo batizado com o nome de Francisco. Padre
Antônio Melo escreveu várias cartas a um amigo, exaltando a inteligência de
Zumbi (Francisco). Em 1670, com quinze anos, Zumbi fugiu e voltou para o
Quilombo. Tornou-se um dos líderes mais famosos de Palmares. "Zumbi"
significa: a força do espírito presente. Baluarte da luta negra contra a
escravidão, Zumbi foi o último chefe do Quilombo dos Palmares.
O nome Palmares foi dado pelos
portugueses, em razão do grande número de palmeiras encontradas na região da
Serra da Barriga, ao sul da capitania de Pernambuco, hoje, estado de Alagoas.
Os que lá viviam chamavam o quilombo de Angola Janga (Angola Pequena). Palmares
constituiu-se como abrigo não só de negros, mas também de brancos pobres,
índios e mestiços extorquidos pelo colonizador. Os quilombos, que na língua
banto significam "povoação", funcionavam como núcleos habitacionais e
comerciais, além de local de resistência à escravidão, já que abrigavam
escravos fugidos de fazendas. No Brasil, o mais famoso deles foi Palmares.
O Quilombo dos Palmares existiu por
um período de quase cem anos, entre 1600 e 1695. No Quilombo de Palmares (o
maior em extensão), viviam cerca de vinte mil habitantes. Nos engenhos e
senzalas, Palmares era parecido com a Terra Prometida, e Zumbi, era tido como
eterno e imortal, e era reconhecido como um protetor leal e corajoso. Zumbi era
um extraordinário e talentoso dirigente militar. Explorava com inteligência as
peculiaridades da região. No Quilombo de Palmares plantavam-se frutas, milho,
mandioca, feijão, cana, legumes, batatas. Em meados do século XVII,
calculavam-se cerca de onze povoados. A capital era Macaco, na Serra da Barriga.
A Domingos Jorge Velho, um
bandeirante paulista, vulto de triste lembrança da história do Brasil, foi
atribuído a tarefa de destruir Palmares. Para o domínio colonial, aniquilar
Palmares era mais que um imperativo atribuído, era uma questão de honra. Em
1694, com uma legião de 9.000 homens, armados com canhões, Domingos Jorge Velho
começou a empreitada que levaria à derrota de Macaco, principal povoado de
Palmares. Segundo Paiva de Oliveira, Zumbi foi localizado no dia 20 de novembro
de 1695, vítima da traição de Antônio Soares. “O corpo perfurado por balas e
punhaladas foi levado a Porto Calvo. A sua cabeça foi decepada e remetida para
Recife onde, foi coberta por sal fino e espetada em um poste até ser consumida
pelo tempo”.
O Quilombo dos Palmares foi defendido
no século XVII durante anos por Zumbi contra as expedições militares que
pretendiam trazer os negros fugidos novamente para a escravidão. O Dia da
Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro no Brasil e é dedicado à
reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A data foi
escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.
A lei 10.639, de 9 de janeiro de
2003, incluiu o dia 20 de novembro no calendário escolar, data em que
comemoramos o Dia Nacional da Consciência Negra. A mesma lei também tornou
obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. Nas escolas as
aulas sobre os temas: História da África e dos africanos, luta dos negros no
Brasil, cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional,
propiciarão o resgate das contribuições dos povos negros nas áreas social,
econômica e política ao longo da história do país.
Amélia Hamze
Profª da FEB/CETEC
ISEB/FISO-Barretos
ahamze@uol.com.br
Profª da FEB/CETEC
ISEB/FISO-Barretos
ahamze@uol.com.br
Dia da Consciência Negra
O "Dia
da Consciência Negra" retrata
a disputa pela memória histórica.
Preservar a memória é uma das formas de construir a
história. É pela disputa dessa memória, dessa história, que nos últimos 32 anos
se comemora no dia 20 de novembro, o "Dia Nacional da Consciência
Negra".
Nessa data, em 1695, foi assassinado Zumbi, um dos
últimos líderes do Quilombo dos Palmares, que se transformou em um grande ícone
da resistência negra ao escravismo e da luta pela liberdade. Para o historiador
Flávio Gomes, do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, a escolha do 20 de novembro foi muito mais do que uma simples oposição
ao 13 de maio: "os movimentos sociais escolheram essa data para mostrar o
quanto o país está marcado por diferenças e discriminações raciais.
Foi também uma luta pela visibilidade do problema. Isso
não é pouca coisa, pois o tema do racismo sempre foi negado, dentro e fora do Brasil. Como se não
existisse".
Como surgiu o Dia da Consciência Negra
No dia 20 de novembro de 1695, o negro Zumbi, chefe do
Quilombo dos Palmares, foi morto em uma emboscada na serra Dois Irmãos, em Pernambuco,
após liderar uma resistência que culminou, também, com o início da destruição
do Quilombo.
O Quilombo dos Palmares foi uma comunidade criada pelos
escravos que fugiam de seus senhores para viver em liberdade. Houve uma época
em que o Quilombo abrigou mais de 20 mil pessoas.
Zumbi nasceu no Quilombo mas, ainda recém-nascido, foi
capturado e entregue a um padre, que lhe deu o nome Francisco, o ensinou a ler
e a escrever. Aos 15 anos de idade, o menino resolveu voltar ao Quilombo, onde,
pouco tempo depois, tornou-se líder. Em 1995, após 300 anos de sua morte, Zumbi
foi reconhecido como herói nacional.
As rebeliões de escravos foram bastante freqüentes no
período colonial. Os negros fugidos escondiam-se na mata e organizavam-se em
grupos, para sobreviver à hostilidade do ambiente e às investidas dos brancos.
Os grupos, internamente coesos, recebiam o nome de
quilombos e as aldeias que os compunham, de mocambos. O mais conhecido dos
quilombos foi de Palmares, pois foi o que mais tempo durou (1630 -1695), o que
ocupou maior área territorial (cerca de 400 km2 dos atuais estados de
Pernambuco e Alagoas) e o que resistiu mais bravamente aos ataques dos brancos.
Palmares se organizou como um verdadeiro Estado - com as
estruturas dos estados africanos, onde cada aldeia tinha um chefe, os quais
elegiam seu rei - e possuía um verdadeiro exército, além de fortificações em
torno das aldeias, que deixaram os comandantes brancos admirados.
Tinha uma produção agrícola bem avançada, que dava para a
subsistência das aldeias e ainda produzia um excedente que podia ser negociado
com mascates e lavradores brancos. No entanto, a própria existência de um
Estado independente dentro da colônia era inaceitável para os portugueses, que
consideravam Palmares como seu maior inimigo, depois dos holandeses.
O primeiro rei de Palmares foi Gangazumba, que comandou
uma bem-sucedida resistência, repelindo dezenas de expedições dos brancos. Em
1678, assinou uma trégua com o governador Aires de Souza e Castro - atitude que
dividiu o quilombo.
Em conseqüência, Gangazumba terminou por ser envenenado.
Foi substituído por Zumbi que já era um líder respeitado e que se tornou o
grande herói dos Palmares. Várias investidas foram feitas contra o quilombo:
duas ainda sob o domínio Falar sobre o Dia da Consciência Negra nos faz
parafrasear Patativa quando ele propõe o respeito às diferenças. Acreditamos
que isto não deve ser encarado como concessão ou exceção a uma regra
socialmente estabelecida, mas como o direito de igualdade em oportunidades
entre os indivíduos.
O dia 20 de novembro marca o assassinato do líder Zumbi
dos Palmares, oficializado herói nacional, por ocasião do tricentenário de sua
morte em 1996. Símbolo da resistência contra o racismo, a opressão e as
desigualdades sociais. Marca da resistência dos povos contra o colonialismo, o
imperialismo e o terrorismo em todo o mundo, sob todas as formas.
Construindo o "Dia da Consciência Negra"
O 20 de novembro trata da data do assassinato de Zumbi,
em 1665, o mais importante líder dos quilombos de Palmares, que representou a
maior e mais importante comunidade de escravos fugidos nas Américas, com uma
população estimada de mais 30 mil.
Em várias sociedades escravistas nas Américas existiram
fugas de escravos e formação de comunidades como os quilombos. Na Venezuela,
foram chamados de cumbes, na Colômbia de palanques e de marrons nos EUA e
Caribe. Palmares durou cerca de 140 anos: as primeiras evidências de Palmares
são de 1585 e há informações de escravos fugidos na Serra da Barriga até 1740,
ou seja bem depois do assassinato de Zumbi. Embora tenham existido tentativas
de tratados de paz os acordos fracassaram e prevaleceu o furor destruidor do
poder colonial contra Palmares.
Há 32 anos, o poeta gaúcho Oliveira Silveira sugeria ao
seu grupo que o 20 de novembro fosse comemorado como o "Dia da Consciência
Negra", pois era mais significativo para a comunidade negra brasileira do
que o 13 de maio. "Treze de maio traição, liberdade sem asas e fome sem
pão", assim definia Silveira o "Dia da Abolição da Escravatura"
em um de seus poemas. Em 1971 o 20 de novembro foi celebrado pela primeira vez.
A idéia se espalhou por outros movimentos sociais de luta contra a
discriminação racial e, no final dos anos 1970, já aparecia como proposta
nacional do Movimento Negro Unificado.
A diversidade de formas de celebração do 20 de novembro
permite ter uma dimensão de como essa data tem propiciado congregar os mais
diferentes grupos sociais. "Os adeptos das diferentes religiões
manifestam-se segundo a leitura de sua cultura, para dali tirar elementos de
rejeição à situação em que se encontra grande parte da população
afro-descendente”.
Os acadêmicos e os militantes celebram através dos
instrumentos clássicos de divulgação de idéias: simpósios, palestras,
congressos e encontros; ou ainda a partir de feiras de artesanatos, livros, ou
outras modalidades de expressão cultural.
Grande parte da população envolvida celebra com samba,
churrasco e muita cerveja", conta o historiador Andrelino Campos, da
Faculdade de Formação de Professores, da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro.
"É importante que se conquiste o "Dia da
Consciência Negra" como o dia nacional de todos os brasileiros e
brasileiras que lutam por uma sociedade de fato democrática, igualitária,
unindo toda a classe trabalhadora num projeto de nação que contemple a
diversidade engendrada no nosso processo histórico".
Para o historiador Flávio Gomes, do Departamento de
História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a escolha do 20 de novembro
foi muito mais do que uma simples oposição ao 13 de maio: "os movimentos
sociais escolheram essa data para mostrar o quanto o país está marcado por
diferenças e discriminações raciais. Foi também uma luta pela visibilidade do
problema. Isso não é pouca coisa, pois o tema do racismo sempre foi negado,
dentro e fora do Brasil. Como se não existisse".
O projeto neoliberal implantado em nosso país acirra as
desigualdades, afetando, ainda mais, as parcelas menos favorecidas da população
brasileira. Em pesquisa realizada pelo DIEESE (1998) são apresentadas
informações que comprovam a discriminação à população negra, tomando por base
as regiões metropolitanas.
Taxas de Desemprego por Sexo e segundo a Raça
Os dados apresentados demonstram que as taxas de
desemprego entre homens e mulheres, negros (as) e não negros (as) ainda
registram valores muito elevados. Se compararmos a diferença das taxas entre
homens negros e não negros, com mulheres negras e não negras, a maior diferença
estará em relação às mulheres negras, já que estas apresentam, em todas as
regiões, as maiores taxas de desemprego.
No entanto, este debate não se encerra na mera inserção
no mercado de trabalho. Deve ser acompanhado pelos números que registram a taxa
de analfabetismo o número de anos de permanência na escola e a média de
rendimentos salariais.
Na Síntese dos Indicadores Sociais - IBGE (2000) é
apontado que, em 1999, a taxa de analfabetismo entre pretos e pardos é de 20%,
enquanto entre os brancos cai para 8,3%. Quando demonstram o número de anos de
permanência na escola as estatísticas não são diferentes: os pretos passam 4,5
anos, os pardos 4,6 anos e os brancos 6,7 anos. Isto demonstra que os pretos e
pardos saem mais cedo da escola, o que irá refletir, diretamente na população
jovem, quanto ao acesso ao nível superior e ao mercado de trabalho.
Quando empregados (as) os níveis salariais também servem
para denunciar a discriminação econômica e de gênero. Conforme Sueli Carneiro e
Thereza Santos, na obra "Mulher Negra" : 83,1% das mulheres negras
trabalham na agricultura e na prestação de serviços (principalmente como
empregadas domésticas); 60% não têm registro em carteira. Quanto à média
salarial, os homens brancos recebem 6,3% salários mínimos (s.m), os negros 2,9
s.m, as mulheres brancas 3,6 s.m e a s mulheres negras 1,7 s.m Tais dados
tornam-se ainda mais gritantes quando se estima que o número de mulheres chefes
de família no país varia entre 20% e 25%. As condições de trabalho e salários
destas mulheres refletiram diretamente no grau de pobreza dessas famílias.
O projeto do Dia Estadual da consciência negra a ser
comemorado em cada dia 20 de novembro originou a Lei de n.º 12056 de 12 de
janeiro de 1993, onde estabelece que o Governo e a Assembléia legislativa
promoverão atividades alusivas a esta data. Ficou instituído também que as
comemorações nas escolas públicas estarão relacionadas a dedicação das
atividades curriculares para abordagem de temas relativos a participação do
negro na história do Brasil.
Remeto-me, nesse momento, a todos aqueles que lutam,
alguns chegando a dar a própria vida, em nome da liberdade, da democracia e do
respeito às diferenças. Dos povos indígenas à Zumbi dos Palmares; dos negros
(as) escravo (as) a Joaquim Nabuco, de Chica da Silva aos poetas Cruz e Souza,
Lima Barreto; de Castro Alves à Jorge Amado; do Mestre Aleijadinho ao Geógrafo
Milton Santos; de Chiquinha Gonzaga aos guerrilheiros e guerrilheiras do
Araguaia. Nesta data símbolo da resistência saúdo a todos que lutam e lutaram
na construção de um mundo justo e igualitário.
Para a socióloga Antonia Garcia, doutoranda do Instituto
de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, é importante que se conquiste o "Dia da Consciência Negra"
"como o dia nacional de todos os brasileiros e brasileiras que lutam por
uma sociedade de fato democrática, igualitária, unindo toda a classe
trabalhadora num projeto de nação que contemple a diversidade engendrada no
nosso processo histórico".
Quilombo
O termo “quilombo” vem das
palavras “kilombo” da língua Quimbundo e “ochilombo” da língua Umbundo. Há
ainda outras línguas africanas com palavras similares que designam a mesma
coisa. Em alguns lugares do nosso país, os quilombos também recebiam o nome de
“mocambos”.
Em seu significado original, “quilombo”
se referia a um lugar de repouso utilizado por populações nômades. No Brasil, a
palavra tomou uma nova dimensão: chamava-se quilombo umacomunidade de
escravos fugitivos. Nessas comunidades vivia-se de acordo com a cultura
originalmente africana – seja em âmbito cultural, religioso ou social. Em
alguns quilombos, inclusive, tentou-se até mesmo a nominação de reis tribais.
Dedicados à economia de subsistência e
raramente ao comércio, alguns quilombos tiveram sucesso.
Escondidos no meio das matas, aqueles que prosperaram se transformaram em
aldeias. Há muitos registros de quilombos por todo o país, principalmente nos
seguintes estados: Alagoas, Bahia, Pernambuco, Goiás, Mato Grosso, Minas
Gerais, Pará, Rio de Janeiro e São Paulo.
A principal razão pela qual os quilombos
se situavam nas matas era estratégica. O local de difícil acesso era
propositalmente escolhido para evitar uma recaptura e aqueles que se situavam
próximos a estradas garantiam pequenos saques e, por conseqüência, a
sobrevivência dos quilombolas. É importante lembrar que por
diversas vezes os quilombos não abrigavam só escravos, mas também índios e
pessoas procuradas pela justiça.
Os habitantes dos quilombos, chamados “quilombolas”,
eram escravos fugidos de seus senhores desde as primeiras fases do período
colonial. A maioria dos quilombolas sofria com a perseguição dos donos de
terras, pois havia interesse em retomar um escravo fugitivo e puni-lo como
exemplo para os demais.
Em 1630, devido a invasão holandesa em pernambuco, muitos
senhores de engenho abandonaram suas terras. Isso foi uma grande oportunidade
para que muitos escravos fugissem e procurassem um quilombo, tornando-se,
assim, quilombolas. O quilombo que mais abrigou refugiados por causa dessa
ocorrência foi o Quilombo de Palmares, em Alagoas.
Os principais quilombos foram Palmares,
Campo Grande e Ambrósio, mas durante a história há registro de centenas de
outras comunidades similares.
PRINCI Quilombo dos Palmares
O Quilombo
dos Palmares foi um quilombo da era colonial brasileira.
Localizava-se na então capitania de Pernambuco,
na serra da Barriga, região hoje pertencente ao
município de União dos Palmares,
no estado brasileiro de Alagoas.
Conheceu o seu auge na segunda metade do século XVII, constituindo-se no mais emblemático dos quilombos formados no período colonial. Resistiu por mais de um século,
o seu mito transformando-se em moderno símbolo da resistência do africano à escravatura.
História
Antecedentes
As primeiras referências a um quilombo na região remontam
a 1580,
formado por escravos fugitivos de engenhos das Capitanias de Pernambuco e da Bahia:
iniciava-se o período denominado, no Brasil, como União Ibérica.
No fim do século XVI, o quilombo ocupava uma vasta área coberta
de palmeiras,
que se estendia do cabo de Santo Agostinho ao rio São Francisco.
Um século mais tarde, esse território encontrava-se reduzido à região de Una e Serinhaém, em Pernambuco, Porto Calvo e
São Francisco, atual Penedo,
em Alagoas.
[editar]O apogeu
À época das invasões holandesas do
Brasil (1624-1625 e
1630-1654), com a perturbação causada nas rotinas dos engenhos de açúcar, registrou-se um crescimento da população em
Palmares, que passou a formar diversos núcleos de povoamento (mocambos).
Os principais foram:
§
Macaco - o maior, centro político do quilombo,
contando com cerca de 1.500 habitações;
§
Subupira - centralizava as atividades militares,
contando com cerca de 800 habitações;
§
Zumbi
§
Tabocas
Embora não se possa precisar o número de habitantes nos
Palmares, de vez que a população flutuava ao sabor das conjunturas,
historiadores estimam que, em 1670,
alcançou cerca de vinte mil pessoas.
Essa população sobrevivia graças à caça,
à pesca,
à coleta de frutas (manga, jaca, abacate e outras) e à agricultura (feijão, milho, mandioca, banana, laranja e cana-de-açúcar).
Complementarmente, praticava o artesanato: (cestas, tecidos, cerâmica, metalurgia). Os excedentes eram comercializados com
as populações vizinhas, de tal forma que colonos chegavam a alugar terras para
plantio e a trocar alimentos por munição com
os quilombolas.
Pouco se sabe, também, acerca da organização política do
quilombo. Alguns supõem que se constituiu ali um verdadeiro Estado, nos moldes
dos reinos africanos, sendo os diversos mocambos governados por oligarcas sob a
chefia suprema de um líder. Outros apontam para a possibilidade de uma
descentralização do poder entre os diferentes grupos, pertencentes às diversas etniasque
formavam os núcleos de quilombos, que delegavam esse poder a lideranças
militares conforme o seu prestígio. As mais famosas lideranças foram Ganga Zumba e
seu sobrinho, Zumbi. Apesar
disso, alguma forma de trabalho compulsório também foi praticada dentro do
quilombo.[1]
]A repressão
Busto de Zumbi dos
Palmares em Brasília.
Com a expulsão dos holandeses do Nordeste do Brasil,
acentuou-se a carência de mão-de-obra para
a retomada de produção dos engenhos de açúcar da região. Dado o elevado preço
dos escravos africanos, os ataques a Palmares aumentaram, visando a recaptura
de seus integrantes.
A prosperidade de Palmares, por outro lado, atraía
atenção e receio, e o governo colonial sentiu-se obrigado a tomar providências
para afirmar o seu poder sobre a região. Em carta à Coroa Portuguesa, um
Governador-geral reportou que os quilombos eram mais difíceis de vencer do que
os holandeses (neerlandeses).
Foram necessárias, entretanto, cerca de dezoito
expedições, organizadas desde o período de dominação holandesa, para erradicar
definitivamente o Quilombo dos Palmares.
No último quartel do século XVII, Fernão Carrilho ofereceu
a Ganga Zumba, um líder que implementou táticas de guerrilha na defesa do
território, um tratado de paz (1677). Por seus termos, era oferecida a liberdade aos
nascidos no quilombo, assim como terras inférteis na região de Cocaú. Grande
parte dos quilombolas rejeitou os termos desse acordo, nitidamente
desfavoráveis e, na disputa então surgida, Ganga Zumba foi envenenado, subindo
ao poder o seu irmão, Ganga Zona, aliado dos portugueses. O acordo foi,
desse modo, rompido, tendo os dissidentes se restabelecido em Palmares, sob a
liderança de Zumbi.
No primeiro momento, Zumbi substituiu a estratégia de
defesa passiva por um tipo de estratégia de guerrilha,
com a prática de ataques de surpresa a engenhos, libertando escravos e
apoderando-se de armas, munições e suprimentos, empregando-os em novos ataques.
A ação
de Domingos Jorge Velho
Após várias investidas relativamente infrutíferas contra
Palmares, o governador e Capitão-general da capitania de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro,
contratou o bandeirante Domingos Jorge Velho e o Capitão-mor Bernardo Vieira de Melo para erradicar de vez a ameaça dos
escravos fugitivos na região.
O quilombo passou a ser atacado pelas forças do
bandeirante e, mesmo experientes na guerra de extermínio, tiveram grandes
dificuldades em vencer as táticas dos quilombolas, mais elaboradas que a dos indígenas com
quem haviam tido contato. Adicionalmente, tiveram problemas para contornar a
inimizade surgida com os colonos da região, vítimas de saques dos bandeirantes
em diversas ocasiões.
Em janeiro de 1694,
após um ataque frustrado, as forças do bandeirante iniciaram uma empreitada
vitoriosa, com um contingente de seis mil homens, bem armados e municiados,
inclusive com artilharia. Um quilombola, Antônio Soares, foi capturado
e, mediante a promessa de Domingos Jorge Velho de que seria libertado em troca
da revelação do esconderijo do líder, Zumbi foi encurralado e morto em uma
emboscada, a 20 de novembro de 1695.
A cabeça de Zumbi foi cortada e conduzida para Recife,
onde foi exposta em praça pública, no alto de um mastro,
para servir de exemplo a outros escravos.
Sem a liderança militar de Zumbi, por volta do ano de 1710,
o quilombo desfez-se por completo.
Escravidão no Quilombo
Apesar de Representar uma resistência à escravidão,
muitos quilombos contavam com a escravidão internamente. Esta prática levou
vários teóricos a interpretarem a prática dos quilombos como um conservadorismo
africano, mantendo as diversas classes sociais existentes na África, incluindo
reis, generais e escravos.[2][3]
Entretanto, outros autores[quem?] demonstram que a prática desumana da escravidão nos quilombos tinha dupla
finalidade:
- a primeira, de aculturar os escravos recém-libertos às práticas do quilombos, que consistiam em trabalho árduo para a subsistência da comunidade, já que muitos dos escravos libertos achavam que não teriam mais que trabalhar; e
- a segunda, que visava diferenciar os ex-escravos que chegavam aos quilombos pelos próprios meios, daqueles trazidos por incursões de resgates. O primeiro grupo, consistia de ex-escravos fugidos, que se arriscavam até encontrar um quilombo, sendo perseguidos por animais selvagens e pelos antigos senhores, correndo ainda o risco de serem capturados por outros escravistas. O segundo grupo, consistia de escravos apreendido quilombolas que iam às fazendas e vilas para capturar escravos.
- a primeira, de aculturar os escravos recém-libertos às práticas do quilombos, que consistiam em trabalho árduo para a subsistência da comunidade, já que muitos dos escravos libertos achavam que não teriam mais que trabalhar; e
- a segunda, que visava diferenciar os ex-escravos que chegavam aos quilombos pelos próprios meios, daqueles trazidos por incursões de resgates. O primeiro grupo, consistia de ex-escravos fugidos, que se arriscavam até encontrar um quilombo, sendo perseguidos por animais selvagens e pelos antigos senhores, correndo ainda o risco de serem capturados por outros escravistas. O segundo grupo, consistia de escravos apreendido quilombolas que iam às fazendas e vilas para capturar escravos.
Alguns estudiosos realçam que, diferente do trabalho
escravo, os quilombolas organizavam a forma trabalho que, por um bem comum,
tinha que ser muito árdua independente do ramo, visando o progresso do próprio
quilombo. Diferente dos engenhos, onde os escravos eram tratados como animais e
o trabalho era em prol apenas de seus donos.
Contudo, a escravidão nos quilombos em nada se
assemelhava à escravidão dos brancos sobre os negros, sendo os escravos
considerados como membros das casas dos senhores, aos quais deviam obediência e
respeito.[4] Semelhante
à escravidão entre brancos, comum na Europa na Alta Idade Média.
PAIS
QUILOMBOS BRASILEIROS
Bahia
1. Quilombo do rio Vermelho
2. Quilombo do Urubu
3. Quilombo de Jacuípe
4. Quilombo de Jaguaribe
5. Quilombo de Maragogipe
6. Quilombo de Muritiba
7. Quilombos de Campos de Cachoeira
8. Quilombos de Orobó, Tupim e Andaraí
9. Quilombos de Xiquexique
10. Quilombo do Buraco do tatu
11. Quilombo de Cachoeira
12. Quilombo de Nossa Senhora dos Mares
13. Quilombo do Cabula
14. Quilombos de Jeremoabo
15. Quilombo do rio Salitre
16. Quilombo do rio Real
17. Quilombo de Inhambuque
18. Quilombos de Jacobina até o rio São Francisco.
2. Quilombo do Urubu
3. Quilombo de Jacuípe
4. Quilombo de Jaguaribe
5. Quilombo de Maragogipe
6. Quilombo de Muritiba
7. Quilombos de Campos de Cachoeira
8. Quilombos de Orobó, Tupim e Andaraí
9. Quilombos de Xiquexique
10. Quilombo do Buraco do tatu
11. Quilombo de Cachoeira
12. Quilombo de Nossa Senhora dos Mares
13. Quilombo do Cabula
14. Quilombos de Jeremoabo
15. Quilombo do rio Salitre
16. Quilombo do rio Real
17. Quilombo de Inhambuque
18. Quilombos de Jacobina até o rio São Francisco.
Nota: Stuart B. Schwartz conseguiu listar 35 quilombos na
região da Bahia entre os séculos XVII, XVIII e XIX.
Sergipe
1. Quilombo de Capela
2. Quilombo de Itabaiana
3. Quilombo de Divina Pastora
4. Quilombo de Itaporanga
5. Quilombo do Rosário
6. Quilombo do Engenho do Brejo
7. Quilombo de Laranjeiras
8. Quilombo de Vila nova
9. Quilombo de São Cristóvão
10. Quilombo de Maroim
11. Quilombo de Brejo Grande
12. Quilombo de Estância
13. Quilombo de Rosário
14. Quilombo de Santa Luíza
15. Quilombo de Socorro
16. Quilombo do rio Cotinguiba
17. Quilombo do rio Vaza Barris
2. Quilombo de Itabaiana
3. Quilombo de Divina Pastora
4. Quilombo de Itaporanga
5. Quilombo do Rosário
6. Quilombo do Engenho do Brejo
7. Quilombo de Laranjeiras
8. Quilombo de Vila nova
9. Quilombo de São Cristóvão
10. Quilombo de Maroim
11. Quilombo de Brejo Grande
12. Quilombo de Estância
13. Quilombo de Rosário
14. Quilombo de Santa Luíza
15. Quilombo de Socorro
16. Quilombo do rio Cotinguiba
17. Quilombo do rio Vaza Barris
Pernambuco
1. Quilombo do Ibura
2. Quilombo de Nazareth
3. Quilombo de Catucá (extensão do Cova da Onça)
4. Quilombo do Pau Picado
5. Quilombo do Malunguinho
6. Quilombo de Terra Dura
7. Quilombo do Japomim
8. Quilombos de Buenos Aires
9. Quilombo do Palmar
10. Quilombos de Olinda
11. Quilombo do subúrbio do engenho Camorim
12. Quilombo de Goiana
13. Quilombo de Iguaraçu
2. Quilombo de Nazareth
3. Quilombo de Catucá (extensão do Cova da Onça)
4. Quilombo do Pau Picado
5. Quilombo do Malunguinho
6. Quilombo de Terra Dura
7. Quilombo do Japomim
8. Quilombos de Buenos Aires
9. Quilombo do Palmar
10. Quilombos de Olinda
11. Quilombo do subúrbio do engenho Camorim
12. Quilombo de Goiana
13. Quilombo de Iguaraçu
Maranhão
1. Quilombo da lagoa Amarela (Preto Cosme)
2. Quilombo do Turiaçu
3. Quilombo de Maracaçamé
4. Quilombo de São Benedito do Céu
5. Quilombo do Jaraquariquera
2. Quilombo do Turiaçu
3. Quilombo de Maracaçamé
4. Quilombo de São Benedito do Céu
5. Quilombo do Jaraquariquera
Paraíba
1. Quilombo do Cumbe
2. Quilombo da serra de Capuaba
3. Quilombo de Gramame (Paratuba)
4. Quilombo do Livramento
2. Quilombo da serra de Capuaba
3. Quilombo de Gramame (Paratuba)
4. Quilombo do Livramento
Rio Grande do Sul
1. Quilombo do negro Lúcio (ilha dos Marinheiros)
2. Quilombo do Arroio
3. Quilombo da serra dos Tapes
4. Quilombo de Manuel Padeiro
5. Quilombo do município de Rio Pardo
6. Quilombo na serra do Distrito do Couto
7. Quilombo no município de Montenegro (?)
2. Quilombo do Arroio
3. Quilombo da serra dos Tapes
4. Quilombo de Manuel Padeiro
5. Quilombo do município de Rio Pardo
6. Quilombo na serra do Distrito do Couto
7. Quilombo no município de Montenegro (?)
Nota: a interrogação posta depois do quilombo do
município de Montenegro significa que as fontes informativas não são
conclusivas quanto à sua existência; o quilombo de Manuel Padeiro é chamado, em
algumas fontes, de Manuel Pedreiro.
Santa Catarina
1. Quilombo da Alagoa (Lagoa)
2. Quilombo da Enseada do Brito
3. Outros quilombos menores "que devem ter dado muito trabalho"
2. Quilombo da Enseada do Brito
3. Outros quilombos menores "que devem ter dado muito trabalho"
Minas Gerais
1. Quilombo do Ambrósio (Quilombo Grande)
2. Quilombo do Campo Grande
3. Quilombo do Bambuí
4. Quilombo do Andaial
5. Quilombo do Careca
6. Quilombo do Sapucaí
7. Quilombo do morro de Angola
8. Quilombo do Paraíba
9. Quilombo do Ibituruna
10. Quilombo do Cabaça
11. Quilombo de Luanda ou Lapa do Quilombo
12. Quilombo do Guinda
13. Lapa do Isidoro
14. Quilombo do Brumado
15. Quilombo do Caraça
16. Quilombo do Inficionado
17. Quilombos de Suçuí e Paraopeba
18. Quilombos da serra de São Bartolomeu
19. Quilombos de Marcela
20. Quilombos da serra de Marcília
2. Quilombo do Campo Grande
3. Quilombo do Bambuí
4. Quilombo do Andaial
5. Quilombo do Careca
6. Quilombo do Sapucaí
7. Quilombo do morro de Angola
8. Quilombo do Paraíba
9. Quilombo do Ibituruna
10. Quilombo do Cabaça
11. Quilombo de Luanda ou Lapa do Quilombo
12. Quilombo do Guinda
13. Lapa do Isidoro
14. Quilombo do Brumado
15. Quilombo do Caraça
16. Quilombo do Inficionado
17. Quilombos de Suçuí e Paraopeba
18. Quilombos da serra de São Bartolomeu
19. Quilombos de Marcela
20. Quilombos da serra de Marcília
Nota: Carlos Magno Guimarães conseguiu listar 116
quilombos em minas Gerais no século XVIII.
São Paulo
1. Quilombos dos Campos de Araraquara
2. Quilombo da cachoeira do Tambau
3. Quilombos à margem do rio Tietê, no caminho de Cuiabá
4. Quilombo das cabeceiras do rio Corumateí
5. Quilombo de Moji-Guaçu
6. Quilombos de Campinas
7. Quilombo de Atibaia
8. Quilombo de Santos
9. Quilombo da Aldeia Pinheiros
10. Quilombo de Jundiaí
11. Quilombo de Itapetininga
12. Quilombo da fazenda Monjolinhos (São Carlos)
13. Quilombo de Água Fria
14. Quilombo de Piracicaba
15. Quilombo de Apiaí (de José de Oliveira)
16. Quilombo do Sítio do Forte
17. Quilombo do Canguçu
18. Quilombo do termo de Parnaíba
19. Quilombo da freguesia de Nazaré
20. Quilombo de Sorocaba
21. Quilombo do Cururu
22. Quilombo do Pai Felipe
23. Quilombo do Jabaquara
2. Quilombo da cachoeira do Tambau
3. Quilombos à margem do rio Tietê, no caminho de Cuiabá
4. Quilombo das cabeceiras do rio Corumateí
5. Quilombo de Moji-Guaçu
6. Quilombos de Campinas
7. Quilombo de Atibaia
8. Quilombo de Santos
9. Quilombo da Aldeia Pinheiros
10. Quilombo de Jundiaí
11. Quilombo de Itapetininga
12. Quilombo da fazenda Monjolinhos (São Carlos)
13. Quilombo de Água Fria
14. Quilombo de Piracicaba
15. Quilombo de Apiaí (de José de Oliveira)
16. Quilombo do Sítio do Forte
17. Quilombo do Canguçu
18. Quilombo do termo de Parnaíba
19. Quilombo da freguesia de Nazaré
20. Quilombo de Sorocaba
21. Quilombo do Cururu
22. Quilombo do Pai Felipe
23. Quilombo do Jabaquara
Rio de Janeiro
1. Quilombo de Manuel Congo
2. Quilombos às margens do rio Paraíba
3. Quilombos na serra dos Órgãos
4. Quilombos da região de Inhaúma
5. Quilombos dos Campos de Goitacazes
6. Quilombo do Leblon
7. Quilombo do morro do desterro
8. Bastilhas de Campos (quilombos organizados pelos abolicionistas daquela cidade)
2. Quilombos às margens do rio Paraíba
3. Quilombos na serra dos Órgãos
4. Quilombos da região de Inhaúma
5. Quilombos dos Campos de Goitacazes
6. Quilombo do Leblon
7. Quilombo do morro do desterro
8. Bastilhas de Campos (quilombos organizados pelos abolicionistas daquela cidade)
Região Amazônica
1. Amapá: Oiapoque e Calçoene
2. Amapá: Mazagão
3. Pará: Alenquer (rio Curuá)
4. Pará: Óbidos (rio Trombetas e Cuminá)
5. Pará: Caxiu e Cupim
6. Alcobaça (hoje Tucuruí), Cametá (rio Tocantins)
7. Pará: Mocajuba (litoral atlântico do Pará)
8. Pará: Gurupi (atual divisa entre o Pará e o Maranhão)
9. Maranhão: Turiaçu (rio Maracaçume)
10. Maranhão: Turiaçu (rio Turiaçu)
11. Pará: Anajás (lagoa Mocambo, ilha de Marajó)
12. Margem do baixo Tocantins: Quilombo de Felipa Maria Aranha
2. Amapá: Mazagão
3. Pará: Alenquer (rio Curuá)
4. Pará: Óbidos (rio Trombetas e Cuminá)
5. Pará: Caxiu e Cupim
6. Alcobaça (hoje Tucuruí), Cametá (rio Tocantins)
7. Pará: Mocajuba (litoral atlântico do Pará)
8. Pará: Gurupi (atual divisa entre o Pará e o Maranhão)
9. Maranhão: Turiaçu (rio Maracaçume)
10. Maranhão: Turiaçu (rio Turiaçu)
11. Pará: Anajás (lagoa Mocambo, ilha de Marajó)
12. Margem do baixo Tocantins: Quilombo de Felipa Maria Aranha
Mato Grosso
1. Quilombo nas vizinhanças do Guaporé
2. Quilombo da Carlota (denominado posteriormente Quilombo do Piolho)
3. Quilombos à margem do rio Piolho
4. Quilombo de Pindaituba
5. Quilombo do Motuca
6. Quilombo de Teresa do Quariterê
2. Quilombo da Carlota (denominado posteriormente Quilombo do Piolho)
3. Quilombos à margem do rio Piolho
4. Quilombo de Pindaituba
5. Quilombo do Motuca
6. Quilombo de Teresa do Quariterê
Fonte: www.terrabrasileira.net
13
de maio
ÚNICA REVOLUÇÃO SOCIAL VITORIOSA NO BRASIL
Nesse 13 de maio, cumpre-se sem glória mais um natalício do fim da
escravatura no Brasil, uma das primeiras nações americanas a instituir e a
última a abolir a escravidão. Dos 505 anos de história brasileira, mais de 350
passaram-se sob o látego negreiro. Apesar da superação do escravismo constituir
o mais significativo acontecimento de passado nacional, o aniversário da
Abolição transcorrerá, outra vez, semi-esquecido.
A Abolição já foi data nacional magna, festivamente relembrada e
rememorada. Nos últimos anos, profundamente questionada, organizou-se
verdadeira conspiração de silêncio em torno dela. Paradoxalmente, a operação
recebe o apoio do movimento negro brasileiro que, ao contrário, deveria
desdobrar-se na celebração do 13 de Maio e na discussão de seu significado
histórico, destruindo as interpretações apologéticas sobre ele.
O caráter cordial, transigente e pacífico do brasileiro já foi um dos
grandes mitos nacionais. A abolição da escravatura foi apresentada como prova
dessa pretensa realidade. No exterior, o fim da instituição motivara lutas
fratricidas. A guerra de Secessão causou quinhentas mil vítimas nos USA. No
Haiti, em 1804, a destruição da ordem negreira exigiu a mais violentas guerra
social do continente.
No Brasil, a transição teria se efetuado sem violências devido a instituições
sensíveis ao progresso dos tempos, a líderes esclarecidos e à humanitária alma
popular. Neste cenário de paz e concórdia, brilharia a figura humana de Isabel
- a Redentora. Apiedada com o sofrimento dos negros e despreocupada com a sorte
do seu trono, ela assinou com caneta de ouro o diploma que pôs fim ao
cativeiro.
Em 13 de maio de 1888, começaria a construção de sociedade fraterna e
desprovida de barreiras sociais ou raciais intransponíveis. As desigualdades
existentes dever-se-iam a deficiências não essenciais da civilização
brasileira, enraizada em uma concórdia estrutural entre ricos e pobres, brancos
e negros. Ao menos, era o que se dizia.
Pátria
incruenta
Acontecimentos pátrios de impar importância, a Independência, a
República e a Abolição teriam como denominador comum o caráter essencialmente
pacífico da civilização brasileira. Apresentava-se igualmente a essência
patriarcal da ordem escravista como corolário da natureza magnânima do homem
brasileiro, que quebrantava qualquer confronto de raça, credo e classe.
Com a queda da ditadura militar e a redemocratização, em 1985, a
crescente organização popular e o surgimento de entidades negras combativas
criaram as condições para desnudar a triste realidade subjacente ao discurso da
democracia racial e da fraternidade brasileira. As narrativas laudatórias sobre
a Abolição, sobre a escravidão e sobre o caráter democrático de sociedade
nacional trincavam-se contra a triste realidade contemporânea.
Em fins dos anos setenta, diante dos olhos mais míopes, desnudava-se
situação onde o povo negro constituía a parcela mais sofrida de uma população
crescentemente explorada. Revelava-se para os que não se negavam a ver
sociedade singularmente violenta onde a pele escura dificultava a conquista do
trabalho e facilitava o acesso à prisão, se não ao necrotério.
Desde os anos sessenta, as descrições fantasiosas sobre o passado do
Brasil eram refutadas por cientistas sociais como Florestan Fernandes, Octávio
Ianni, Fernando Henrique Cardoso, etc. que empreenderam análises mais
objetivas, sobretudo da segunda metade do século 19. Porém, em geral, esses
autores refutavam o significado histórico do 13 de Maio ao referirem-se à
escravidão. Apontavam a inusitada violência do escravismo brasileiro mas
definiram a sua superação como um "negócio de brancos", onde os
cativos, principais interessados, não teriam tido papel significativo ou ganhos
substanciais naquela superação.
Em fins dos anos setenta, o movimento negro retomou acriticamente essa
tese, com o objetivo de melhor denunciar a situação econômica e social da
população afro-descendente. Para desqualificar a Abolição, ressaltou-se que se
efetuara sem a indenização pecuniária ou fundiária. Que o movimento
abolicionista buscava, libertando os cativos, prover-se de mão-de-obra barata.
Que após a Abolição, as condições de existência das massas negras teriam talvez
piorado, tese defendida, por Gilberto Freyre, sobretudo em Sobrados e mucambos,
de 1936.
Para melhor criticar os mitos da emancipação do povo negro em 1888 e da
ação magnânima da Regente Imperial, o movimento negro propôs a abominação do 13
de Maio e a celebração do 20 de Novembro como dia nacional da consciência negra
no Brasil. Naquela data, em 1695, morria Zumbi, o último chefe da confederação
dos quilombos de Palmares.
Encobrindo
o passado
Apesar de bem-intencionadas, essas leituras consolidaram as
interpretações caricaturais e paternalistas do 13 de Maio, dos ideólogos das
classes proprietárias, que procuravam escamotear o sentido e a essência de
sucessos nascidos do esforço das massas escravizadas aliadas aos setores
abolicionistas radicalizados. Assentou-se assim a última pedra na construção do
esquecimento do mais importante acontecimento histórico brasileiro - a
revolução abolicionista de 1887-8.
O movimento negro organizado esquecia que celebrar a Abolição não
significa reafirmar os mitos da emancipação social do povo negro em 1888 ou de
Isabel como promotora da emancipação. Ignorava que comemorar o fim da
escravidão significa recuperar a importância da superação do escravismo,
através de frente política pluriclassitas, e do protagonismo dos cativos nesses
fatos e no passado do Brasil.
Em forma alienada e imperfeita, as comunidades negras sempre intuíram a
importância histórica da libertação, em 1888. Apenas nos últimos anos essa
consciência diluiu-se devido ao proselitismo anti-Abolição, verdadeira invenção
da tradição que resulta em grave perda da memória histórica das classes
trabalhadoras e oprimidas, em geral, e afro-descendentes, em particular.
Foi o profundo impacto da Libertação, em 1888, na consciência e na vida
dos cativos e libertos que levou o povo negro a rememorar, com tanto carinho,
por um século, o 13 de Maio, e festejou, imerecidamente, com devoção, a
escravista Isabel de Bragança, herdeira da casa de Bragança, um dos grandes
responsáveis pela manutenção do cativeiro no Brasil quase até o século 20.
Em inícios de 1980, Mariano Pereira dos Santos, centenário ex-cativo,
apesar de ter vivido como homem livre na profunda miséria, afirmava comovido,
semanas antes de morrer, que após a "Libertação", o povo negro vivera
"na glória". Maria Benedita da Rocha, uma outra ex-cativa, também
centenária, referiu-se, arrebatada ao anúncio do fim do cativeiro na sua
fazenda. Através do Brasil, nas cidades e campos, em 13 de maio de 1888, os
tambores e atabaques ressoaram poderosos ferindo em derradeira vendeta os
tímpanos dos negreiros derrotados.
O
dia da libertação
A visão do 13 de Maio, pelo povo negro, como concessão da Redentora, não
pode ser explicada apenas como resultado da propaganda das classes
proprietárias. Constitui a cristalização, alienada e determinada pela ideologia
dominante, na consciência popular, de acontecimento de profundo sentido
histórico para as classes trabalhadoras escravizadas e toda a nacionalidade
brasileira. Ou seja, operação para diluir a memória do protagonismo dos
trabalhadores escravizados em acontecimento único no nosso passado.
Não há sentido em antepor Palmares ao 13 de Maio. Apesar de saga
luminar, Palmares teve menor significado histórico que a Abolição. Por mais
heróica que tenha sido, a epopéia palmarina jamais propôs, e historicamente não
poderia ter proposto, a destruição da instituição servil como um todo. Palmares
resistiu por quase um século, determinou a história do Brasil, mas foi
derrotado. A revolução abolicionista foi vitoriosa e pôs fim ao escravismo,
ainda que tardiamente.
Desconhecer o sentido revolucionário da Abolição é olvidar a essência
escravista de dois terços de passado brasileiro e o caráter singular da gênese
do Brasil contemporâneo, através da destruição do modo de produção escravista
colonial. Tal desconhecimento ignora a contradição essencial que regeu por mais
de trezentos anos o passado brasileiro - escravizadores contra trabalhadores
escravizados - e consolida a falsa visão do cativo como categoria social que
jamais alcançou a ser protagonista da história.
Nos anos 1950, autores como Clóvis Moura e Benjamin Péret produziram
importantes leituras sobre o agir dos trabalhadores escravizados no Brasil. Nos
anos sessenta, Emília Viotti da Costa, Stanley Stein, etc. avançaram
significativamente o conhecimento essencial da escravidão. Nas duas décadas
seguintes, foram produzidos numerosos trabalhos sobre a sociedade, economia e
as formas sui-generis de resistência do cativo, destacando-se entre eles a
apresentação em O escravismo colonial por Jacob Gorender do escravismo colonial
como modo-de-produção historicamente novo.
Nesses anos, estudos como o hoje já clássico Os últimos anos da
escravidão no Brasil, de Robert Conrad, apresentaram a Abolição, em seu tempo
conjuntural, como o resultado da insurreição incruenta dos escravos
cafeicultores que, nos últimos meses do cativeiro, abandonaram maciçamente as
fazendas, reivindicando relações contratuais de trabalho. Tais estudos
desvelaram parcialmente a extrema tensão política e social sob a qual o
movimento abolicionista radicalizado alcançou a vitória, em 1888, em estreita
ligação com a massa escravizada, principal protagonista dessas jornadas.
Instituição
terminal
Em 13 de maio de 1888, a herdeira imperial nada mais fez do que, após o
projeto abolicionista ter sido aprovado no parlamento pelos representantes dos
grandes proprietários, sancionar a Lei Áurea, assinando o atestado de óbito de
instituição nos estertores finais devido a sua desorganização pela fuga dos
cativos. Durante todo o Primeiro e o Segundo Reinados, os Braganças haviam
defendido com unhas e dentes a escravidão, conscientes da aliança que os unia
umbilicalmente à classe dos escravistas.
Nos últimos meses da escravidão, os mais renitentes negreiros
reconheciam já inevitabilidade do fim da instituição. Defendendo até o último
momento o cativeiro, pretendiam apenas criar as melhores condições para
reivindicar indenização pela propriedade libertada. Foi devido a essa
reivindicação que o ministro republicano Rui Barbosa ordenou a queima dos
registros de posse de cativos, pois, sem prova legal, não havia possibilidade
de indenização.
Foi igualmente a ação estrutural das massas escravizadas, durante os
três séculos de cativeiro, que construiu as condições que ensejaram, mais
tarde, a destruição da servidão. Sobretudo a rejeição permanente do cativo ao
trabalho feitorizado impôs limites insuperáveis ao desenvolvimento tecnológico
da produção escravista, determinando altos gastos de vigilância e de coerção ao
regime negreiro que abriram espaços para formas e modos de produção
historicamente superiores.
Em 1888, a revolução abolicionista destruiu o modo de produção
escravista colonial que, por mais de trezentos anos, ordenara a sociedade no
Brasil. Negar estas realidades devido às condições econômicas, passadas ou
atuais, da população negra, é compreender a história com preconceitos
simplistas, moralizadores e, sobretudo, não históricos. Os limites da Abolição
eram objetivos. Nos últimos anos da escravidão, a classe escrava era categoria
social em declínio que lutava sobretudo pela conquista dos direitos cidadãos
mínimos. Foi a reivindicação da liberdade civil que uniu a luta dos cativos
rurais à dos cativos urbanos, então pouco representativos.
Apenas
a liberdade
Não procede a proposta que a Abolição não teve conteúdo porque os
escravistas não indenizaram os cativos. A estrutura latifundiária das
plantações escravistas, a pouca difusão de hortas servis e a liberdade civil
como reivindicação central já dificultavam movimento pela distribuição de
terras, que exigiria união de cativos, caboclos, posseiros, colonos sem terra,
etc., praticamente impossível de ser então concretizado, devido sobretudo ao
baixo nível de consciência e organização e à elevada heterogeneidade e
dispersão geográfica das classes trabalhadoras rurais. Porém, tal medida foi
defendida por setores do movimento abolicionista.
Na limitação das conquistas obtidas quando da Abolição pesou também a
verdadeira contra-revolução empreendida pelos grandes proprietários, através do
golpe republicano, oligárquico e federalista, imposta em 15 de novembro de
1889, que pôs fim ao movimento abolicionista como projeto reformista nacional.
Os limites históricos da Abolição não devem minimizar a importância da
conquista dos direitos políticos e civis mínimos para aproximadamente
setecentos mil homens, mulheres, jovens e crianças ainda registrados como
escravos ou ventre-livres. Com o 13 de Maio, superava-se a distinção entre
trabalhadores livres e escravizados, iniciando-se a história da classe operária
brasileira como a compreendemos hoje.
Nos anos 90, a derrota histórica do mundo trabalho diante do capital e a
euforia neoliberal que apenas hoje perde ímpeto determinaram os destinos gerais
da historiografia. No Brasil como alhures, em tempos de Nova História, os
holofotes da mídia, o interesse das editoras, o bon ton historiográfico
passaram a recomendar temas e estudos monográficos, intimistas, biográficos ou exóticos,
tranqüilizadores das consciências e pacificadores dos espíritos. Da ciência que
procurava libertar, a história evoluiu à arte de entreter.
Nesse contexto, decaiu o interesse e os incentivos, diretos ou
indiretos, para a pesquisa sobre a história das classes subalternizadas e para
os estudos analíticos sobre o passado brasileiro. Apequenaram-se os estudos
sobre as classes trabalhadoras urbanas, o movimento camponês, os fenômenos
essenciais da sociedade humana. Diminuíram sensivelmente as pesquisas sobre a
escravidão colonial brasileira que retomaram e refinaram as teses da escravidão
benigna e consensual defendidas com singular inteligência e cabotinismo e por
Gilberto Freyre.
A história é processo objetivo e complexo, apenas em geral ascendente,
onde as conquistas sociais de ontem, parciais e contraditórias, possibilitam
conquistas mais substanciais no presente, como podem, igualmente, dar lugar a
recuos históricos da marcha civilizacional, que ensejam, necessariamente, o
obscurecimento da compreensão do presente e do passado.
A revolução abolicionista foi o primeiro grande movimento de massas
moderno, promovido sobretudo pelos trabalhadores escravizados, em aliança com
libertos, trabalhadores livres, segmentos médios e alguns poucos proprietários.
Até agora, constituiu a única revolução social vitoriosa do Brasil. Resgatando
seu sentido e desvelando sua história, prosseguiremos mais facilmente no
sentido apontado pelos trabalhadores escravizados que ousaram abandonar as
senzalas para pôr fim à ordem negreira, no não tão longínquo ano de 1888.
Maio
De arte negra a esporte
branco
Introdução
A Capoeira, chamada hoje de "o esporte
brasileiro", ou "a arte marcial brasileira", é, na realidade,
uma rica expressão artística (mistura de luta e dança) que faz parte do
patrimônio cultural afro-brasileiro. Depois de sofrer duras perseguições, chega
ao Brasil, na primeira metade do nosso século, sob a forma de Capoeira Angola.
É a partir desta forma inicial que o famoso Mestre Bimba cria outra variante, a
chamada Capoeira Regional, forma que hoje se expande por todo o Brasil,
chegando até a outros países.
O presente trabalho propõe oito características que, de
acordo com o nosso critério, definem a Capoeira tradicional (Angola) como uma
forma artística única, criação afro-brasileira que reflete fielmente as pautas
do grupo étnico do qual surge. Como chega até nós, tem aspectos de dança, luta,
jogo, música, ritual e mímica A conjunção de todos esses elementos gera um
produto que não pode ser classificado atendendo apenas a uma única dessas
facetas, sob pena de perder sua originalidade como arte.
Com base nessas características, apresentaremos um rápido
panorama do desenvolvimento histórico dessa arte, desde a terceira década do
século até nossos dias.
A partir do surgimento da Capoeira Regional,
descreveremos as transformações que se vão produzindo - tanto nas práticas como
na própria concepçã do que é a Capoeira, à medida que esta se expande para
outros grupos sociais e horizontes geográficos. Essas transformações, segundo
acreditamos, não escapam à influência da peculiar estruturação de classes da
sociedade brasileira e, neste sentido, são comparáveis às que sofreram a
religião afro-brasileira com o surgimento da Umbanda.
Essas duas expressões da cultura popular negra, a
religião e esse singular jogo/luta/dança, para serem legitimadas e integradas
ao sistema, precisam perder várias das características que lhes são próprias,
em virtude de sua origem étnica, para adquirirem outros traços que as tornem
mais aceitáveis aos olhos das classes dominantes. Podemos então interpretar o
aparecimento da Capoeira Regional como um "embranquecimento" da
Capoeira tradicional (Angola), seguindo um esquema semelhante ao proposto por
Ortiz (1978) para a Umbanda.
Nossa análise baseia-se principalmente em observações
feitas em 1983, 1985, 1986 e 1987 (um total de oito meses) nas academias de
Capoeira Angola mais importantes da Bahia e em visitas a academias de Capoeira
Regional na Bahia, São Paulo, Belo Horizonte, Los Angeles, São Francisco, Nova
Iorque e Buenos Aires (1).
Estas observações são complementadas com a bibliografia
relativa ao assunto e com nosso aprendizado de Capoeira Angola com o Mestre
João Pequeno, na Bahia, nos anos citados, e de Capoeira Regional, desde 1982,
principalmente nos Estados Unidos e em Buenos Aires (2).
A Capoeira como arte
As oito características que, segundo nossa maneira de
ver, diferenciam a Capoeira Angola e a definem como arte são as seguintes:
1) Malícia: Quase todos os autores (e praticantes) são
unânimes em admitir que este é um dos "fundamentos" da Capoeira - a
habilidade de surpreender o adversário, de "fechar-se" e evitar ser
apanhado de surpresa pelo outro. O bom capoeirista está sempre
"fechado" e sabe que a qualquer movimento seu corresponderá um equivalente
do adversário, exigindo que esteja preparado até para os mais inesperados.
A picardia no jogo é admirada (e desfrutada) pelo público
e pelo próprio adversário. O "angoleiro" distrai seu rival, brinca
com ele, engana-o, mostrando-se desprotegido, para ser atacado justamente onde
deseja e, assim, lançar seu contra-ataque com mais eficácia.
2) Complementação: Os dois jogadores ficam atentos aos
movimentos um do outro e sempre se deslocam, atacam ou se defendem em função do
que fizer o adversário, ou para provocar determinado movimento deste. Joga-se
sempre perto do rival e respondendo a seus movimentos através de ataques,
defesas e contra-ataques.
Os capoeiristas não devem entrar em choque direto, porque
assim a harmonia do jogo será rompida. É preciso contribuir para criar essa
harmonia desenvolvendo o próprio jogo, mas deixando que o adversário possa
fazer o seu próprio É preciso jogar e deixar jogar.
3) Jogo baixo: O jogo de Angola tem movimentos
predominantemente (mas não apenas) baixos. Isto significa que, embora grande
parte dos movimentos requeira que ambas as mãos estejam apoiadas no chão, as
pernadas são, em geral, de pouca altura, e as posições de guarda (com as quais
se espera o movimento do rival e se prepara o próprio) exigem que as pernas estejam
flexionadas e o tronco e a cintura a baixa altura.
Ao contrário do estereótipo, Angola também se joga de pé,
mas as pernadas são baixas. Embora predomine o jogo a baixa altura, os
movimentos de pé e em posições intermediárias (que permitem passar de um plano
alto para outro, baixo) têm importância quase equivalente, já que esta
alternância possibilita maior quantidade de movimentos e dá uma dinâmica
especial ao jogo.
4) Ausência de violência: Na Capoeira Angola, os jogos,
em geral; são exatamente isso - jogos. Pretende-se, sim, atingir o adversário
com alguns golpes, evitar que ele nos alcance, mas na Angola bem feita, jogada
por mestres e alunos adiantados, a luta (no sentido de atingir o adversário)
está sempre inseparavelmente misturada com o jogo. Esta paródia de um combate
traz prazer, diverte tanto os que jogam como os que observam. Isto se verifica
nos corpos descontraídos e nos rostos sorridentes dos jogadores, e no prazer
desfrutado por quem observa. Freqüentemente, quem é (apesar de todos os esforços
em contrário) atingido por algum golpe sorri e se diverte com essa picardia de
seu adversário, que conseguiu penetrar suas defesas. Certa vez, Canjiquinha, um
dos mestres da velha guarda baiana, como comentário apreciativo sobre um dos
melhores angoleiros da nova geração, declarou: "Ele joga rindo o tempo
todo". Esta atitude descontraída também é observada na duração dos jogos,
muito mais longos do que os da Regional.
Apesar disso, não se deve incorrer no equívoco freqüente
de considerar a Capoeira Angola apenas um jogo. É um jogo sim, mas apenas a
partir do momento em que ambos os jogadores, respeitando a tradição, decidem
divertir-se dentro de uma roda. A violação deste acordo tácito por algum dos
adversários pode fazer com que o jogo se transforme em luta. Citando o Mestre
João Pequeno, o mais antigo angoleiro dos que ainda ensinam esta arte: "A
Capoeira é brincadeira, a Capoeira é festa, é alegria mas, na hora exata, ela é
defesa".
Sem os golpes espetaculares da Capoeira Regional, o
angoleiro desde o início aprende a fechar-se, a não deixar resquícios de seus
movimentos e a atacar no momento certo. Um bom angoleiro é muito difícil de
agarrar e aproveitará a mínima falha ou vacilação de seu adversário para
atingi-lo.
5) Movimentos bonitos: Este é um dos elementos mais
importantes da Capoeira Angola, e dos menos entendidos. Nesta mistura
indissolúvel de luta e jogo, o elemento estético adquire grande importância.
Mas é uma estética própria, que surge de um contexto étnico determinado (o
afro-brasileiro) e que, por isso, não é bem compreendido e se transforma
rapidamente (para não dizer se perde) quando essa forma artística se desloca
para outros segmentos sociais que não a compartilham.
Essa característica se soma às anteriores, e, embora o
angoleiro procure fazer movimentos bonitos, por causa da importância da
malícia, da complementação e união de jogo e luta, nunca, ou quase nunca, os
fará pela beleza em si. Os movimentos, embora sempre bonitos, servem como
defesa para o deslocamento ou, ainda, para o ataque, e são respostas a
movimentos dos adversários. É difícil ver um angoleiro ficar desprotegido por
fazer um movimento belo. Ele o fará, mas de forma tal a ficar protegido ou a
levar seu adversário a pensar que está. Aí inventará um contra-ataque fulminante.
Tampouco interromperán o fluir do jogo para fazer alguma pirueta que não seja
exigida.
É importante a idéia de uma estética própria, porque este
é um dos aspectos da Capoeira que mais está se perdendo com a incorporação de
elementos e modelos provenientes das artes marciais e/ou da ginástica
esportiva. Assim, se a técnica da Capoeira Regional requer ou enfatiza os
movimentos altos, retos, estilizados, a beleza particular da Capoeira Angola
reside em movimentos encolhidos, fechados, para dar pouco espaço ao adversário,
mas com um perfeito controle do corpo, para desarmá-los ou transformá-los
segundo o momento o exija. A expressão do rosto, a gestualidade das mãos e
braços, a ginga mais dançada e, freqüentemente, quase substituída por passos do
bailado de outras manifestações negras, a cadência geral dos movimentos - tudo
isso é parte importante dessa estética (quase impossível de descrever
adequadamente por escrito), que reflete fielmente sua origem social e cultural.
6 ) Música lenta: A Capoeira Angola é cadenciada e se
realiza com um ritmo lento, em comparação com o de outras variantes. É um jogo
de domínio do corpo, mas também da mente. Num bom aprendizado, os movimentos de
um jogo são esmiuçados e as várias possibilidades de ação estudadas, como num
jogo de xadrez. A descontração do corpo e os movimentos lentos permitem que os
jogos de Angola sejam muito mais demorados que os da Regional.
7) Importância do ritual: A Capoeira é um jogo com regras
não escritas mas que, assim mesmo, estão presentes e regem seu desenrolar. No
caso da Angola, o conhecimento dessas regras (que regem um número de aspectos
muito mais diversificado do que em outras variantes) é muito importante. Não se
pode ser bom angoleiro quando não se sabe direito quando sair do pé do berimbau,
que gestos invocando proteção se realizam antes disso, ou como se faz
adequadamente uma "pedida de aú". A infração a estas regras provocará
gestos de desaprovação entre os assistentes, ou o infrator será ridicularizado.
Como no Candomblé, no qual saber que cantiga cantar no momento adequado
demonstra conhecimento, "estar por dentro" desta manifestação da
cultura popular, assim também acontece com a Capoeira. A correta apreciação do
que está acontecendo num jogo e de como atuar com relação a isto também é
motivo de orgulho e prestígio dentro do grupo.
8) Teatratidade: Este é outro aspecto geralmente relegado
quando se fala de Capoeira. Na prática, cada vez mais é deixado de lado como
coisa do passado, próprio da Capoeira classificada como "folclore".
No entanto, as expressões do rosto, os movimentos das
mãos, fingindo medo, distração, alegria, conviidando o adversário a jogar ou
distraindo sua atenção; a maneira como certas canções são gestualizadas; tudo
isso faz parte da essência da Capoeira Angola.
Assim, desde antes do início do jogo propriamente dito,
ao pé do berimbau, um dos jogadores pode cantar uma ladainha, expressando sua
posição com relação ao mundo, da roda ou de seu adversário. Se este não
responde com outra, alusiva à sua mensagem, então se passará ao canto de
entrada, durante o qual se fará sinais com gestos em direção ao alto (ao cantar
"Viva meu Deus”), ao mestre ("Viva meu Mestre"), ao adversário
("é mandingueiro", ou "sabe jogar"), para os lados ("joga
aqui pra cá") ou em torno ("pelo mundo afora"). Em seguida, o
rival será convidado a sair e começará o jogo propriamente dito. Ao começar o
canto de entrada, também podem ser feitos gestos que invocam a proteção divina
(sinal da cruz, traçar o signo de Salomão - estrela de seis pontas - no chão,
juntar as mãos, olhando para o alto) para o jogo que se realizará. Dá-se a mão
ao adversário e este é convidado (ao terminar o canto de entrada e começarem as
cantigas) a jogar. Isto não é feito necessariamente sempre assim, mas se a
intenção é jogar como se deve, serão respeitadas várias dessas formas.
Em seguida, durante o jogo, as expressões do rosto, os
gestos das mãos, convidam o oponente a jogar, distraem sua atenção, fingem medo
e surpresa ante os movimentos dele, alegria ante o prazer de jogar. Um golpe
recebido, através da "dramatização" adequada, pode ser incorporado ao
fluir do jogo e demonstrará que quem o recebeu o fez com picardia, com o
verdadeiro espírito de um angoleiro, que sabe que coisas assim acontecem na
vida e as aceita como algo natural. Esta dramatização do fato pode também
servir como disfarce para o próximo golpe que se lançará.
A Capoeira tradicional é como um "teatro
mágico", como bem a define Nestor Capoeira (1985, p109): uma "escola
para a vida" que, reproduzindo metaforicamente as situações que o jogador
pode encontrar na realidade, prepara-o para melhor encará-las.
Dessa teatralização também podem participar todos os que
assistem à roda, não apenas quem joga naquele momento. Como os cantos podem ser
iniciados por qualquer um dos participantes, às vezes, através destes, será
feita referência (em geral brincalhona) ao que está acontecendo dentro da roda.
Essas oito qualidades, segundo acreditamos, são as que
caracterizam a Capoeira Angola atual. São, portanto, também, representativas de
como era a Capoeira existente antes de se criar o estilo da Capoeira Regional.
Embora a Capoeira Angola também tenha se modificado com a passagem do tempo,
conversas com velhos mestres e o jogo de quem, com 60 anos ou mais, ainda a
pratica nos dão a demonstração de que a Angola atual conserva muito da
tradicional.
A Capoeira é, insistimos, uma forma artística complexa,
um jogo-luta, uma dança-ritual-teatro, fruto da criação coletiva de um grupo
social determinado - no caso, as camadas populares negras do Brasil. Como tal,
deve refletir as características mais gerais do grupo do qual surge. Isto se vê
claramente na ênfase que se dá, na Capoeira, à malícia e à picardia.
Estar sempre atento, para aproveitar a menor oportunidade
e tirar vantagem (e evitar ser vítima disso), são traços próprios de quem deve
esmerar-se na arte de sobreviver com os magros recursos a seu alcance, traços
que se observam ainda hoje nas atitudes cotidianas dos setores populares
baianos. A picardia se expressa tanto no samba como na Capoeira, na conquista
de uma mulher como nos brincalhões duelos verbais, tão peculiares a este setor.
É um estilo étnico próprio (Kochman, 1981) que se reflete nas diversas
modalidades da cultura grupal.
O que acontece quando uma arte que reflete as
características culturais de um grupo começa a estender-se para fora dele,
chegando a outras camadas sociais e a diversos contextos geográficos? Tem;
forçosamente, de mudar. Mas a mudança, embora inevitável, quando se trata de
qualquer manifestação social e cultural (para uma crítica pormenorizada das
visões estáticas de outros aspectos da cultura afro-brasileira, neste caso o
Candomblé, ver Frigerio, 1983), também vai expressar as assimétricas relações
de poder existentes na sociedade. Quem tem maior poder econômico e social
poderá com maior facilidade influir no processo de mudança, impondo seus
valores e visões de mundo.
Ainda considerando os fatores sociais como
condicionadores de todo o processo de mudança, ao analisar a transformação da
Capoeira não se pode perder de vista a influência que um homem teve sobre esse
processo. Idolatrado pelos praticantes da Capoeira Regional, menosprezado ou
ignorado pelos angoleiros, toda a evolução posterior da arte tem como ponto de
referência inevitável o Mestre Bimba.
A Capoeira como luta
Todos os autores que já escreveram sobre Capoeira (Rego,
1968; Moura, 1980; Almeida, 1981 e 1986; Capoeira, 1981 e 1985; Areias, 1983),
ao falarem de Mestre Bimba, são unânimes em afirmar que:
1) Bimba era um capoeirista consumado, praticante de
Angola (única variante existente na época).
2) Achando que essa modalidade deixava "muito a
desejar em termos de luta" (Itapoan, 1982, p. 14), criou um novo estilo,
que chamou de "Luta Regional Baiana" (Rego, 1968, p. 269) e que logo
passaria a ser conhecido como Capoeira Regional.
3) Foi o primeiro Mestre a abrir uma escola (academia) de
Capoeira, em 1932. Seu "Centro de Cultura Física e Capoeira Regional"
foi também a primeira escola de Capoeira reconhecida oficialmente pelo governo,
em 1937.
4) Acredita-se, também, que ele foi o primeiro Mestre a
desenvolver uma metodologia de ensino. Os alunos aprendiam um determinado
número de lições e distinguiam-se três níveis de praticantes: “iniciantes”,
"formados" e "formados especializados" (Capoeira, 1985, p.
95). Introduziu, ainda, suas oito famosas "seqüências", combinações
programadas de ataque e defesa praticadas, todas elas, por seus alunos, que,
ainda hoje, utilizam amplamente seus ensinamentos
5) Outra característica peculiar a sua escola, e que terá
importantes conseqüências para o futuro desenvolvimento da Capoeira, é que um
setor majoritário (ou pelo menos importante, já que não há estimativas exatas)
de seus alunos pertencia à classe média e alta baiana: "seus discípulos
variam desde o homem do povo até políticos, ex-chefes de Estado, doutores,
artistas e intelectuais" (Rego, 1968, p. 283). Segundo Mestre Acordeon,
ex-aluno seu, "a maior-parte dos capoeiristas de Mestre Bimba estudava em
colégios e universidades" (Almeida, 1981, p.45).
Esse fato traz conseqüências diversas. Segundo a maioria
dos autores (Rego, 1968, p. 361; Areias, 1983, p. 68; Capoeira, 1985, p. 111;
Almeida, 1981, p. 40), é graças a isso que a Capoeira começa a ganhar mais
aceitação social, deixando de ser considerada como algo praticado por
desqualificados marginais e passando a ser vista como uma manifestação cultural
do povo baiano. Em 1937 (Areias, 1983, p. 67), a escola de Bimba, primeiro
grupo de Capoeira a realizar uma apresentação no palácio do governo baiano, é
reconhecida oficialmente. Com o passar dos anos, o Mestre realiza várias
apresentações perante diversas autoridades, e em 1953 apresenta-se para o
Presidente Getúlio Vargas.
Outras conseqüências da irrupção de jovens dos setores
acomodados baianos na prática da Capoeira são menos positivas. Segundo Areias
(1983, p. 69), o fato de que a academia era freqüentada por membros da
burguesia acarreta uma alienação com relação ao meio que deu origem à arte
(algo parecido, embora sem precisar exatamente a escola, sugere Rego, 1968, p.
290), já que "uma das medidas adotadas (...) foi a de aceitar apenas
alunos que tivessem carteira profissional assinada, ou que fossem estudantes ou
tivessem alguma outra ocupação reconhecida (...)" (Areias, 1983, p. 69), para
evitar a afluência de "maus elementos". Com a mesma finalidade,
"era proibido ao aluno freqüentar e participar das rodas de Capoeira
Angola e das rodas de rua" (Areias, 1983, p. 69). Segundo Mestre Gato,
capoeirista antigo:
"Formou-se um grupo de alunos brancos em torno de
Bimba que, de certa maneira, até mandavam. Bimba, apesar de ser um homem
excepcional, era ignorante. A verdade é que os negros tinham muito poucas
oportunidades de ir para a academia de Bimba aprender Regional. Não estou
dizendo que não havia negros praticando Regional, mas, mas para seis negros,
havia seiscentos brancos, enquanto em Angola 80% eram negros" (Capoeira,
1985, p. 162).
Com Bimba, então, a Capoeira começa a sofrer uma
transformação acelerada. Com ele, deixa de ser brincadeira, vadiação, para ser
uma luta propriamente dita. Bimba era um temível lutador e talvez fosse sua
fama que atraísse os jovens da burguesia.
A Capoeira de Bimba elimina ou reduz a ênfase nos efeitos
cerimoniais, rituais e lúdicos da Capoeira Angola e incorpora novos elementos
de luta que, até aquele momento, eram-lhe estranhos: agarramentos, defesas
contra estes e certos golpes novos. Não se sabe ao certo a origem desses novos
movimentos. Segundo o que próprio Bimba disse a Rego (1968, p. 33), ele
"se valeu de golpes de batuque (..) assim como de detalhes da coreografia
do maculelê (...) além dos golpes da luta greco-romana, jiu-jitsu, judô e
savate (...)". A influência do batuque chegara até ele através de seu pai,
consumado praticante dessa arte popular. A verdadeira influência das lutas
orientais e européias na Regional de Bimba é objeto de discussão: Carneiro
(1975, p. 14) a enfatiza; seus ex-alunos a negam (Itapoan, 1982) ou minimizam
(Almeida, 1981, p. 42); outros autores, como Rego (1968, p. 269) ou Areias (1985,
pp. 67 e 70), registram-na, mas não a destacam.
O certo é que, a partir de Bimba, na década de 30, a
Capoeira sofre uma grande transformação. Enfatizam-se os aspectos de luta, são
acrescentados novos movimentos, aparece um grupo importante de praticantes das
classes médias e altas e a Capoeira começa a ser praticada dentro da
legalidade.
A Capoeira como "folclore".
Começa, assim, o que poderíamos denominar de processo de
legitimação social da Capoeira, já que ela não é mais considerada uma prática
de marginais, mas começa a ser valorizada como luta e também como uma tradição
cultural baiana.
Começa, também, no entanto, junto com a legitimação, o
processo de descaracterização (para usar um vocábulo popular entre os
angoleiros) da Capoeira. Sua prática diminui no ambiente que lhe deu origem, a
rua e as festas de largo, para evitar associações com o meio popular, com seu
passado turvo, e passa-se a praticá-la em recintos fechados, escolas que servem
como meio de vida para os mestres.
Um dos fatores que mais contribuem para sua
descaracterização é (Rego, 1968, p. 361) o próprio órgão municipal de turismo
da Bahia. Este programa freqüentes apresentações para turistas, e as academias
começam a disputar entre os favores da entidade, acrescentando ingredientes
diferentes (samba de roda, pilhérias etc.) a suas apresentações, a fim de
torná-las mais agradáveis para o turista.
Assim a Capoeira se "folcloriza". Em vez de se
impor como uma manifestação cultural popular, com características próprias,
apresenta-se uma imagem adulterada da mesma, procurando o que mais impressione
e agrade o turista.
A capoeira como esporte
Na década de 60, a Bahia continuava sendo o centro
nevrálgico da Capoeira. Mas, por essa época, muitos Mestres, atraídos pelas
possibilidades econômicas do Sul, começaram a emigrar para o Rio de Janeiro e
São Paulo. A Capoeira, aos poucos, espalhava-se pelo Brasil inteiro.
Fora de seu contexto geográfico e social, distante de
suas raízes negras e baianas, a Capoeira já não pode ser praticada como uma
manifestação artística espontânea, e tampouco estereotipada como folclore.
Também não pode ser uma luta ao estilo de Bimba, que desafiava "qualquer
lutador, de qualquer luta, a enfrentá-lo com sua Regional" (Itapoan, 1982,
p. 16) e que treinava esquivando-se de pedras jogadas por seus alunos e de
navalhas suspensas por um fio (Itapoan, 1982, p 39).
Começa então a ganhar popularidade a idéia de que,
devidamente regulamentada, a Capoeira poderia ganhar um lugar junto às artes
marciais orientais, já aceitas pela sociedade brasileira. Passaria, assim, a
ser "a arte marcial brasileira", uma luta esportiva com competições
regulamentadas.
Surgem, assim, em fins da década de sessenta, os
primeiros campeonatos e tentativas de regulamentação da Capoeira. Em 1968 e
1969, realizam-se, numa base da Força Aérea, no Rio de Janeiro, o primeiro e o
segundo simpósios brasileiros de Capoeira. Neles, tentou-se "criar uma
única nomenclatura para os golpes, um único sistema de graduação de alunos,
critérios para graduação de Mestres, tudo com a intenção de fundar federações
de Capoeira (...) e transformá-la no ‘esporte nacional’” (Capoeira, 1985, p.
132). Naquela mesma época, realizam-se na Bahia os primeiros campeonatos de
Capoeira.
Em 1972, a Capoeira é declarada "esporte" pelo
Conselho Nacional de Desportos, e sua prática, como tal, é regulamentada
oficialmente, através da Confederação brasileira de Pugilismo. Em 1974, é
criada a primeira Federação de Capoeira em São Paulo, e em 1984, a segunda, no
Rio de Janeiro. Falta ainda surgir outra, num terceiro estado, para que se
possa criar a Confederação Nacional de Capoeira, livrando-a da tutela do
pugilismo. Em meados da década de 70 realizam-se também os primeiros
campeonatos nacionais de Capoeira.
Esse desenvolvimento da Capoeira/esporte acarreta várias
conseqüências para a prática e a concepção vigente quanto a esta atividade.
Entre elas, destacamos:
1) Uma crescente burocratização: A Capoeira, para poder
ser considerada esporte, tem de ser competitiva e regulamentada (Capoeira,
1985, p. 147), tornando-se necessário, portanto, que existam associações,
federações e uma confederação que, agrupando-as, consagre um regulamento único
para a competição, o ensino da atividade e os critérios de graduação de
Mestres. Tudo isso conduz a uma burocratização crescente e a uma submissão do
esporte/luta à política oficial, já que as federações dependem, em última
instância, do Conselho Nacional de Desportos.
Os torneios, a regulamentação e as federações provocaram
uma grande controvérsia nos últimos 15 anos. Os torneios tiveram bastante
aceitação, mas não a organização de federações. Em grande parte, os
capoeiristas não estão filiados às duas existentes, por não estarem de acordo
com o direito que elas se arrogam de deter o monopólio da fiscalização da prática.
Como toda atividade de origem popular, não codificada, existem diferentes
concepções em torno do que ela é e de como deve ser praticada e ensinada.
Zelosos de sua individualidade -que a tradição da própria arte fomenta -, os
Mestres não querem ser controlados por uma federação.
2) A incorporação de elementos das artes marciais
orientais: A capoeira é definida globalmente como esporte mas, por suas
características, é considerada uma luta. O uso predominante das pernas faz com
que, dentro das lutas/esportes, seja equiparada às artes marciais orientais,
mais do que ao boxe ou à luta greco-romana, por exemplo. Assim, é considerada a
"arte marcial brasileira". Esta definição é vantajosa, já que apela
não apenas para o nacionalismo mas também para a legitimidade que s outras
artes marciais conseguiram. Ao tomá-las como modelo (consciente ou não) a ser
imitado, a Capoeira incorpora elementos que as caracterizam: o uniforme branco,
a prática de pés descalços, o uso de cordões para classificar diferentes etapas
do aprendizado, a atitude séria e marcial durante os treinos, a saudação ritual
(em posição marcial) no início e no fim da aula. Também foram acrescentados
pontapés e golpes de mão que, tradicionalmente, não existiam na Capoeira,
modificou-se a execução de certos golpes que já existiam, tornando-os
"mais técnicos" (portanto, mais parecidos com os do karatê),
introduziram-se técnicas de "defesa pessoal" e, às vezes, até são
utilizadas "guardas" com nítida influência oriental durante os jogos
e práticas. Os torneios também parecem estruturados dentro desse modelo, com
quatro juízes, bandeiras para anunciar as faltas de cada praticante etc. É
mantido o uso do berimbau durante a competição, mas com uma função meramente
simbólica, já que parece não ter a menor influência sobre o jogo (que já não é
um jogo, mas sim uma luta, com contato).
A “arte marcial brasileira”, então, para gozar do
prestígio das outras artes marciais mais bem-sucedidas, precisa ser cada vez
menos brasileira, perdendo suas características próprias e incorporando outras
que lhe são alheias. Influi também, neste processo, o fato de que os mais
fervorosos defensores da Capoeira/esporte são professores de educação física
e/ou especialistas em alguma arte marcial oriental. Este currículo e esta influência
são claramente observados numa recente publicação de difusão maciça sobre
Capoeira (Pinatti e Oliveira Silva, 1984, cap. II), apresentando várias
técnicas (especialmente pp. 14-24 e 50-65) que poderiam ter sido tiradas, foto
por foto, de um livro de karatê:
3) Uma cooptação ideológica e política da arte pelo
sistema: As raízes populares, negras e contraculturais da Capoeira se perdem
para dar lugar a uma Capoeira que "é sinônimo de educação, cultura,
civismo e saúde" (Pinatti e Oliveira Silva, 1984, II: Regulamento de
Competição, p. 3). Segundo esta visão, a prática da Capoeira, “além de
diversão, relax para quem apratica, ajuda a desenvolver o poder da vontade, a
cultivar a cortesia, e patrocina a moderação da linguagem, coopera com a
formação do caráter (...) (Senna, 1980, p13).
Este apelo extremado ao civismo se vê complementado por
uma crescente intromissão do militar na prática do esporte/luta. Isto se nota,
por exemplo no uso compulsivo do uniforme (que deve estar “bem dobrado, passado
e limpo"); na postura marcial do "Salve"; na rígida
hierarquização que se impõe com o uso dos cordões; nas exaltações da ordem
máxima, disciplina rígida e respeito absoluto, a serem mantidos dentro fora do
Templo de Capoeira” (Senna, 1980, p.19, grifo nosso).
Há aspectos menos formais ou inocentes dentro dessa intromissão do marcial na Capoeira: o desenvolvimeto da Capoeira/arte marcial brasileira se produz durante os anos da última ditadura militar; as primeiras tentativas de homogeneização das práticas e regras (simpósios de 1968 e 1969) foram patrocinados pela Força Aérea; uma das primeiras tentativas de regulamentação e sistematização de Capoeira provém de um mestre que a ensina no Colégio Militar. Dirigentes das federações também foram acusados de tentar integrar a Capoeira (para conseguir alcançar sua legitimação e em troca de dádivas diversas) à ideologia política da ditadura militar que dominou o Brasil de 1964 a 1985 (Areias, 1983, p. 77; Capoeira, 1985, p. 155).
Há aspectos menos formais ou inocentes dentro dessa intromissão do marcial na Capoeira: o desenvolvimeto da Capoeira/arte marcial brasileira se produz durante os anos da última ditadura militar; as primeiras tentativas de homogeneização das práticas e regras (simpósios de 1968 e 1969) foram patrocinados pela Força Aérea; uma das primeiras tentativas de regulamentação e sistematização de Capoeira provém de um mestre que a ensina no Colégio Militar. Dirigentes das federações também foram acusados de tentar integrar a Capoeira (para conseguir alcançar sua legitimação e em troca de dádivas diversas) à ideologia política da ditadura militar que dominou o Brasil de 1964 a 1985 (Areias, 1983, p. 77; Capoeira, 1985, p. 155).
4) Concepções evolucionistas subjacentes. Para certo
setor dos praticantes, essa evolução da Capoeira de luta "folclórica"
a arte marcial/esporte, é uma evolução natural, necessária: "Em todas as
partes do globo, cada povo possui um método mais ou menos elaborado de combater
- autodefesa (...) que vai fazendo evoluir o progresso da civilização (...)
" ( Senna, 1980, p. 11).
Segundo essa visão, a partir dessa modalidade de luta popular, que se desenvolveu de forma empírica - portanto considerada "inexata", "ingênua" -, chega-se ao que muitas vezes é denominado de "Capoeira objetiva". Nesta, supostamente, através do estudo dos movimentos e do conhecimento científico que possuímos do corpo humano, seriam alcançados movimentos e técnicas com um grau máximo de eficiência. O saber popular negro, "primitivo", deve assim ser substituído pelo conhecimento "científico" (não esqueçamos de que muitos dos novos Mestres são professores de educação física) que possuem as classes médias, brancas.
Segundo essa visão, a partir dessa modalidade de luta popular, que se desenvolveu de forma empírica - portanto considerada "inexata", "ingênua" -, chega-se ao que muitas vezes é denominado de "Capoeira objetiva". Nesta, supostamente, através do estudo dos movimentos e do conhecimento científico que possuímos do corpo humano, seriam alcançados movimentos e técnicas com um grau máximo de eficiência. O saber popular negro, "primitivo", deve assim ser substituído pelo conhecimento "científico" (não esqueçamos de que muitos dos novos Mestres são professores de educação física) que possuem as classes médias, brancas.
"A Capoeira é executada e praticada de forma
empírica, intuitiva e perigosa. Seus participantes não se dão conta de que,
racionalizada e com um método adequado, muitos seriam os resultados sociais,
físicos e espirituais com que ela poderia contribuir decisivamente para a
formação do elemento humano (...) Alcancemos o caminho da codificação da
Capoeira como esporte e conseguiremos a posição a que chegaram todas as formas
naturais de defesa pessoal de vários povos, as chamadas Artes Marciais, que
passaram pelas mesmas fases de marginalização, lendas, crenças, fanatismo
etc." (Senna, 1980, p. 14).
Essa concepção evolucionista (e tacitamente racista) está
graficamente expressa em Capoeira: A Arte Marcial Brasileira, publicação de
grande tiragem, escrita com a assessoria de dirigentes da Federação Paulista de
Capoeira. O primeiro volume (Pinatti e Oliveira Silva, 1984, cap. I) consta de
duas partes: Capoeira/Cultura e Capoeira/Esporte. Na apresentação da primeira,
aparecem quatro capoeiristas negros e o professor, branco. Os capoeiristas
negros ilustram aqui as formas como se entra no jogo (as "regras" não
escritas), os movimentos básicos e os "movimentos em desuso" (que,
parecem ignorá-lo, têm ainda plena vigência nas academias Angola de Salvador).
A segunda parte, Capoeira/Esporte, está ilustrada por oito capoeiristas
brancos, que mostram as formas de aquecimento (contribuição da educação física)
e os movimentos de cintura solta (agarramentos e quedas) desenvolvidos por
Bimba. A mensagem é muito clara: a Capoeira como cultura pertence aos negros (e
aqui só entram os movimentos básicos, e outros já em desuso) e a Capoeira como
esporte (com técnicas mais complexas e assessoria da educação física - o
pré-aquecimento) pertence aos brancos. Seguindo esta linha, o segundo volume
(Pinatti e Oliveira Silva, 1984, cap. II) desenvolve movimentos de ataque e
defesa (luta) que são ilustrados por sete capoeiristas brancos e um mulato (o
professor). Desses oito capoeiristas, seis são professores de educação física,
confirmando a intromissão de uma disciplina na outra.
Essa versão da passagem da Capoeira, de cultura negra,
para esporte branco é basicamente correta, faltando mencionar o fato de que se
realiza uma valoração ideológica: a Capoeira como cultura é igualada ao
"folclore" e este, estereotipado, como algo pitoresco, estático, do
passado. Por isso se pergunta, na mesma publicação: "Será que [a Capoeira]
sobreviverá e se massificará como manifestação exclusivamente folclórica?
Quantas ‘academias’ de folclore se conhecem?" (A. Ghiberti em Pinatti e
Oliveira Silva, 1984, cap. I, p. 65). A Capoeira, para estes autores, só pode
sobreviver regulamentada como esporte, ou seja, obedecendo às pautas da classe
dominante. Esta apreciação é mascarada como algo necessário, que está "na
natureza das coisas".
Tendências atuais da Capoeira.
Qual a influência desse desenvolvimento da Capoeira
esporte/arte marcial sobre os elementos que, segundo propusemos no início deste
trabalho, caracterizam a Capoeira como arte original?
1) Malícia: Este é um dos aspectos que a Capoeira atual
mais perdeu. Quanto a isto, os velhos Mestres, na maioria, são unânimes
(Capoeira, 1985, pp. 166-8) em ressaltar que, agora, a ênfase recai na
velocidade, na força e nos movimentos acrobáticos, em detrimento da burla e da
picardia. Somente depois de vários anos de prática, e de acúmulo de experiência,
é que os capoeiristas que praticam esta modalidade adquirem algo da malícia.
Nas academias de Angola existentes, os alunos desenvolvem esta qualidade desde
o princípio.
2) Complementação: A sincronização, o fluir do jogo e o
estímulo-resposta da Capoeira tradicional tampouco são enfatizados nos jogos. A
tendência é jogar mais afastado, seja por causa da maior rapidez dos
movimentos, e pelo fato de estes serem mais espetaculares, seja pela crescente
introdução de movimentos acrobáticos no jogo. Já estes, embora lhe proporcionem
a característica de ser um jogo muito vistoso, quebram totalmente a
complementação, já que, em geral, não são feitos como resposta a um movimento
do adversário, mas sim para o próprio brilho. Na forma mais extremada, encontramos
dois praticantes que exibem juntos, mas individualmente, sua destreza física,
em vez de jogarem um com o outro.
3) Jogo baixo: Embora não se possa falar, atualmente, de
jogo baixo propriamente dito, sem dúvida existe algo que ainda caracteriza e
diferencia a Capoeira de outras artes marciais - o uso freqüente de ataques e
defesas realizados abaixando-se até o chão.
Provavelmente, no entanto (e sem querer), a maior "descaracterização" (para empregar o termo popular entre os angoleiros baianos) da Capoeira tradicional se dá, justamente, quando praticantes claramente acostumados com a Regional fazem jogos de Angola - fazem-no respondendo ao estereótipo vigente de que o jogo de Angola é algo lindo, porém "passado", sem vigência ou valor como luta, e também sem saber como este jogo realmente é. Jogam lento, mas todo o tempo abaixados (ignorando, como dissemos no início, que Angola utiliza movimentos de pé e em posições intermediárias), e o que fazem, basicamente, são movimentos de destreza física próximos do chão, sem buscar maior complementação com o adversário ou considerar que, na realidade, deveriam também estar lutando. De modo geral, quando há roda, começa-se com o jogo de Angola, lento, "um jogo" (ou seja, sem maior importância), e logo se passa para a Capoeira "a sério", a Regional.
Provavelmente, no entanto (e sem querer), a maior "descaracterização" (para empregar o termo popular entre os angoleiros baianos) da Capoeira tradicional se dá, justamente, quando praticantes claramente acostumados com a Regional fazem jogos de Angola - fazem-no respondendo ao estereótipo vigente de que o jogo de Angola é algo lindo, porém "passado", sem vigência ou valor como luta, e também sem saber como este jogo realmente é. Jogam lento, mas todo o tempo abaixados (ignorando, como dissemos no início, que Angola utiliza movimentos de pé e em posições intermediárias), e o que fazem, basicamente, são movimentos de destreza física próximos do chão, sem buscar maior complementação com o adversário ou considerar que, na realidade, deveriam também estar lutando. De modo geral, quando há roda, começa-se com o jogo de Angola, lento, "um jogo" (ou seja, sem maior importância), e logo se passa para a Capoeira "a sério", a Regional.
4) Ausência de violência: A ênfase na luta e a Capoeira
identificada exclusivamente como arte marcial, em detrimento dos outros
aspectos, faz com que a violência esteja cada vez mais presente nos jogos. Já
não se joga "com" um adversário, mas "contra" ele.
5) Movimentos bonitos: A estética continua sendo
importante e prossegue a busca de beleza nos movimentos, mas a concepção de
beleza que se tem é totalmente diferente. A beleza que se busca nos movimentos
corresponde, como dissemos no início deste trabalho, a uma estética diferente.
O modelo a imitar, com as pernadas, é o das artes marciais orientais e, no
aspecto acrobático, o da ginástica esportiva.
Há, além disso, uma ênfase nos movimentos bonitos pela
beleza em si, desprovidos de qualquer intenção de deslocamento, ataque ou
defesa. Isto não acontece com a Capoeira Angola, na qual todos os movimentos,
por mais que se pretenda torná-los bonitos, têm um objetivo. A pirueta bonita,
mas sem outro propósito que não seja o visual, ajuda a quebrar a complementação
do jogo.
6) Música lenta: Utilizam-se (ou deveriam ser utilizados,
já que isto nem sempre é respeiado) diferentes ritmos para diferentes tipos de
jogo. A Regional, no entanto, caracteriza-se por seus ritmos rápidos.
7) Importância do ritual: Embora em menor quantidade que na Capoeira tradicional, continuam existindo regras não escritas para o correto desempenho do jogo. Há, no entanto, certos aspectos que poderíamos classificar como ritualísticos que raras vezes são vistos fora das academias de Angola (como o denominado "pedida de aú", ou "chamada de Angola"), e também gestos rituais próprios da Capoeira tradicional que, talvez por desconhecimento, má interpretação ou, ainda, reinterpretação, são substituídos por outros. Como exemplo, observamos que está bastante disseminado no Sul o costume de "pedir a bença do berimbau", que consiste em levar a mão até o extremo inferior do berimbau e, em seguida, fazer o sinal da cruz, antes de partir para o jogo. Isto substitui todos os gestos que, no mesmo momento, realiza o angoleiro, invocando proteção (trazer o signo de Salomão etc.). No Sul, também, toca-se o chão em frente ao berimbau, imediatamente depois de concluir o jogo, costume que tampouco se observa na Capoeira tradicional.
7) Importância do ritual: Embora em menor quantidade que na Capoeira tradicional, continuam existindo regras não escritas para o correto desempenho do jogo. Há, no entanto, certos aspectos que poderíamos classificar como ritualísticos que raras vezes são vistos fora das academias de Angola (como o denominado "pedida de aú", ou "chamada de Angola"), e também gestos rituais próprios da Capoeira tradicional que, talvez por desconhecimento, má interpretação ou, ainda, reinterpretação, são substituídos por outros. Como exemplo, observamos que está bastante disseminado no Sul o costume de "pedir a bença do berimbau", que consiste em levar a mão até o extremo inferior do berimbau e, em seguida, fazer o sinal da cruz, antes de partir para o jogo. Isto substitui todos os gestos que, no mesmo momento, realiza o angoleiro, invocando proteção (trazer o signo de Salomão etc.). No Sul, também, toca-se o chão em frente ao berimbau, imediatamente depois de concluir o jogo, costume que tampouco se observa na Capoeira tradicional.
8) Teatralidade: Este é o aspecto que mais se perdeu. O
teatral, o pantomínico, na Capoeira, sempre esteve misturado com o ritual, e
sobretudo com a malícia, que o sustenta e lhe dá sentido. É por malícia que sai
da teatralização, enganoso e inesperado, o ataque certeiro. Reduzida a parte
ritual (que só tem importância no início do jogo e quase não aparece durante
este), tirada a ênfase da malícia e valorizada a luta em si, a teatralização
quase desaparece.
As afirmações que fizemos sobre o que acontece com as
características originais só podem ser consideradas como um reflexo das
tendências gerais na prática da Capoeira. Como já mencionamos, esta ainda é uma
atividade que exprime a individualidade de cada Mestre e de cada praticante Por
isso é que não vingaram as tentativas de homogeneização de sua prática.
Essas características se mantêm, em graus diferentes, nas
diversas academias. Mesmo dentro de cada uma pode haver variações, de indivíduo
para indivíduo. Também há variações de acordo com o tipo de jogo que se adote
(devemos lembrar que há diferentes toques de berimbau, que correspondem a
distintas formas de jogo) e do contexto em que é realizado (roda fechada, roda
aberta, apresentação, torneio etc.).
Há, também, diferenças zonais. Na Bahia, por exemplo, por
ter sido o epicentro do desenvolvimento da Capoeira, sempre estarão presentes,
por mais que se enfatize o aspecto da luta, a malícia e a teatralização. No
Sul, os movimentos estarão mais próximos das artes marciais e da ginástica.
Academias "mais tradicionais" e "menos
tradicionais"
Se é difícil estabelecer uma classificação rígida das
academias, o mais acertado, então, seria defender a existência de um continuum
unindo dois pólos ideais, entre os quais poderíamos classificá-las ou situá-las
de acordo com a medida em que a Capoeira praticada por elas conserva as
características apontadas por nós como tradicionais. Um esquema parecido é
proposto por Ortiz (1978, p. 88) ao analisar a transformação sofrida pelas
religiões afro-brasileiras, em especial com o surgimento da Umbanda.
Então, existirá um pólo "mais tradicional", em
que a Capoeira praticada conservaria em maior medida as oito características
propostas como típicas da Capoeira tradicional; e outro, "menos
tradicional", em que estas características estariam pouco presentes (pouca
malícia, pouca complementação, ênfase na luta, violência, movimentos bonitos
segundo a estética branca, pouca ritualização e teatralização etc).
Vimo-nos quase tentados a chamar a um dos pólos de
Capoeira Angola e ao outro de Capoeira Regional. Mas, como só existem
raríssimas academias de Angola no Brasil, e como a Capoeira Regional passou a
ser a capoeira neste país, pareceu-nos mais adequada a nomenclatura finalmente
proposta. Fica entendido que as academias de Angola estariam situadas no
extremo "mais tradicional" da tipologia. Isto não impede que uma
academia, por mais que seja de Regional, embora respeite as características
desta, também se aproxime do outro pólo. Por exemplo, as opiniões de Mestre
Atanilo (um dos discípulos mais antigos de Bimba) sobre a Capoeira atual
(Capoeira, 1985, pp. 168-169) poderiam ter sido subscritas por qualquer
angoleiro. Depoimentos recolhidos em Salvador demonstram também que as práticas
de Bimba eram muito mais parecidas com as de Angola do que as atuais.
Seria interessante verificar, como propõe Ortiz para sua
tipologia (Ortiz, 1968, p. 88), se também não poderia a nossa ser relacionada
com as diferenças de classe existentes na sociedade, ou seja, se as academias
"mais tradicionais" são mais freqüentadas pelas classes mais
populares e as "menos tradicionais" pelas classes médias e, "na
medida em que a linha de classe coincida com a linha de cor" (Ortiz, 1978,
p. 89), verificar se os negros tendem a freqüentar mais o primeiro tipo de
academia. Seguramente, haveria também uma diferenciação geográfica: as
academias da Bahia podem ser situadas mais perto do pólo "mais
tradicional" e as de São Paulo do oposto.
Essa tipologia não pretende ser valorativa, implicando,
de alguma forma, que as academias "menos tradicionais" sejam piores
do que as "tradicionais." É certo, no entanto, que a Capoeira
praticada nas primeiras perdeu várias das características que a configuravam
como forma artística própria de um povo, o afro-brasileiro Este fato se agrava
quando se justifica esta perda como algo natural e necessário para a evolução
desta arte, quando se propõe como "natural" o desenvolvimento da
Capoeira de "luta ingênua", "folclórica," (negra) para
"arte marcial/esporte", "objetiva" (branca). Ao proceder-se
assim, mascara-se a relação assimétrica de poder existente na sociedade e se
justifica (mediante uma ideologia racista e evolucionista) a apropriação da
arte de um grupo étnico por outro e a mutilação e perda da memória e da
identidade desse grupo.
Umbanda e Capoeira regional: dois desenvolvimentos paralelos?
Depois de esboçar um breve panorama do desenvolvimento da
Capoeira em nosso século, e de assinalar os condicionamentos sociais que
influíram nesse desenvolvimento, acreditamos que uma comparação com a evolução
das religiões afro-brasileiras (especialmente com o surgimento da Umbanda) pode
ser altamente instrutiva. Sem tentar equiparar exatamente a Umbanda com a
Capoeira Regional, há certos paralelismos óbvios no desenvolvimento de ambas,
demonstrando que as mesmas forças sociais foram acionadas nos dois casos,
principalmente o impulso para um "embranquecimento" das expressões
culturais negras.
Como afirmamos anteriormente, não pretendemos negar a
essas novas manifestações mestiças sua importância ou valor, já que sua ampla
aceitação popular mostra que, além dos interesses de classe que possam ter
causado seu aparecimento (ou ter influído neste), constituem, atualmente,
manifestações autênticas da cultura popular brasileira. No entanto, sustentamos
que têm, efetivamente (ou lhes são conferidas), conotações ideológicas, quando
são utilizadas para monopolizar a legitimidade na área que lhes diz respeito,
ou são apresentadas como meta à qual, inevitavelmente, devem aspirar as
expressões negras que lhes deram origem (por exemplo, quando se clama que a
Umbanda é religião e o Candomblé, ou qualquer variante ortodoxa, é superstição,
ou que a Capoeira Regional é uma arte marcial e a Capoeira mais tradicional
"apenas" folclore).
Nossa análise deverá, forçosamente, ser superficial, mas
acreditamos que pode proporcionar pistas interessantes a serem aprofundadas em
trabalhos posteriores.
As religiões afro-brasileiras, durante o fim do século
passado e parte da metade deste, foram perseguidas e reprimidas pela polícia.
Isto se devia ao fato de que o uso de tambores, as danças, os transes, os
sacrifícios de animais, a ênfase em melhorar a vida dos adeptos através de
meios sobrenaturais (adivinhação, oferendas, trabalhos) eram todos elementos
que caracterizavam a religiosidade africana, mas não coincidiam com a visão
dominante, branca e católica do que deveria ser uma religião. Seus praticantes,
negros e pertencentes às camadas sociais mais baixas, desprovidos de poder
político, não podiam opor argumentos à visão racista que os considerava, junto
com suas manifestações culturais, um estigma do qual a sociedade brasileira
deveria livrar-se para "progredir".
Durante a segunda metade do século passado, o Espiritismo
de Allan Kardec se populariza na sociedade brasileira. Nas classes baixas,
mistura-se com as práticas afro-brasileiras, influindo enormemente sobre elas.
Surge assim a Macumba carioca, o Candomblé de Caboclos baiano etc. Nas classes
médias, impõe-se uma versão mais ortodoxa do Kardecismo.
Durante meados da década de 20, um grupo de homens de
classe média, brancos, de procedência espírita, insatisfeitos com o que
consideravam uma ênfase desproporcional dada aos aspectos doutrinário e
intelectual por parte do Kardecismo, começam a freqüentar os centros
afro-brasileiros da periferia. Somando à sua bagagem espírita uma ênfase no
utilitário e em diferentes aspectos do colorido ritual desses centros, criam
uma nova religião que denominam Umbanda (Brown, 1977, p. 33). Esta
"Umbanda Branca,", ou "Pura", como é apresentada, elimina
elementos de origem africana desses centros: sacrifícios de animais, oferendas
materiais, tambores, danças. Estes aspectos, aos quais consideravam
"primitivos", chocavam-se com seus valores de classe média.
Esse grupo, a partir de uma casa mãe, começa a fundar
outros centros e, em 1939, cria a primeira Federação de Umbanda, com o objetivo
de proteger seus filiados contra a perseguição da polícia. Em 1941, realizam o
Primeiro Congresso de Espiritismo de Umbanda, no qual propuseram-se a codificar
o ritual e a ideologia umbandistas e deram sua versão da origem da mesma,
remontando às antigas civilizações da índia ou do Egito (e não da África,
porque, aqui, na opinião deles, os grupos só possuíam uma cultura
"rudimentar") (Brown, 1977, p. 34).
Essa religião, já "brasileira" e expurgada do
"afro", durante certo tempo vê-se restrita, majoritariamente, a
núcleos de classe média.
A queda do regime de Vargas possibilita uma aceleração da
organização e da difusão da nova religião, através dos meios de comunicação.
Multiplicam-se as federações e os líderes de classe média, com sua Umbanda
Branca, conseguem maior prestígio e legitimidade para a religião. Este fato,
além de sua influência ante políticos locais e a polícia, fazem com que vários
centros de menor nível sócio-econômico e com raízes africanas mais fortes
entrem em sua esfera de influência, em troca de favores políticos. Por sua vez,
os líderes dessas federações de classe média têm de flexibilizar um pouco sua
definição de religião, para permitir o ingresso destes centros de classe baixa
que, por seu grande número, formavam uma clientela política notável. Para
finalidades da década de 50, políticos umbandistas conquistam cargos de
vereadores e também de deputados estaduais.
Na década de 60, esses líderes umbandistas de classe
média já haviam obtido "uma posição de considerável influência sobre o
crescimento da Umbanda no Rio (...) dominavam a apresentação da Umbanda ao
público em geral e o processo de sua legitimação e institucionalização dentro
da sociedade brasileira (...)" (Brown, 1977, p. 39). Embora não
conseguissem unificar os rituais e a ideologia de todos os centros do Rio, sua
concepção cresceu por todo o Brasil e teve "um efeito nivelador sobre as
tradições regionais de muitas cidades, influenciando-as na direção de uma
religião nacional mais uniforme" (Brown, 1977, p. 40).
A ditadura militar que se estabelece em 1964 é benévola
com essa nova religião, que considera um possível meio de controle político.
"Os militares, rapidamente, tornam-se muito mais visíveis e numerosos,
como líderes de centros e federações de Umbanda" (Brown, 1985, p. 35). É
sob o governo militar que o registro dos templos passa da jurisdição policial à
civil, a Umbanda é reconhecida como religião no censo oficial e muitos de seus
feriados religiosos são incorporados aos calendários públicos (Brown, 1985, p.
35).
Assim, a Umbanda, como variante "mais branca"
(Ortiz, 1978) da religiosidade afro-brasileira, acomoda-se bem aos valores
sociais vigentes e é integrada ao sistema e legitimada. Por esta razão,
expande-se nos diferentes níveis sociais e em todas as áreas geográficas,
influindo fortemente, ainda, nas outras variantes da religião afro, tanto as
mais sincréticas (Batuque do Pará, Pajelança) como as mais ortodoxas (Candomblé
da Bahia, Xangô de Recife, Batuque de Porto Alegre).
Não existe, porém, uma única Umbanda apenas. A Umbanda
branca, influencia, como dissemos, os centros mais africanizados, mas não chega
a impor completamente sua ideologia e ritual. Por isso é que, a partir de Ortiz
(1978), reconhece-se, em geral, que se pode agrupar os templos de Umbanda ao
longo de um continuum que vai desde os "menos ocidentalizados" (os
que conservam vários traços africanos, como tambores, sacrifícios etc.) até os
"mais ocidentalizados", que prescindem desses elementos e adotam uma
prática mais parecida com a do espiritismo.
Comparando o desenvolvimento de ambas as expressões populares (a
Umbanda e a em 1972 Capoeira Regional), que paralelismos podem ser
estabelecidos?
Em ambos os casos, havia uma manifestação cultural de
origem africana, praticada majoritariamente por setores sociais mais baixos,
nos quais predomina a gente de cor (Capoeira tradicional, Macumba e Candomblé).
Estas práticas eram estigmatizadas e perseguidas em virtude de sua origem
étnica e social.
Num determinado momento, um grupo de homens das classes
mais acomodadas interessa-se por essas manifestações culturais. Assim, em
meados da década de 20, um grupo de "kardecistas insatisfeitos" toma
elementos dos centros afro-brasileiros e cria a Umbanda. Em meados da década de
30, Mestre Bimba, negro, cria a Capoeira Regional, a partir da tradicional.Sua
ênfase na luta, em detrimento de outros elementos culturais, faz com que sua
academia passe a ser freqüentada, na maioria, por brancos da classe média.
Essas novas variantes, purgadas de vários de seus
elementos negros (a Umbanda não utiliza sacrifícios nem tambores; a Capoeira
Regional tira a ênfase do jogo, do ritual e da teatralidade) e praticadas por
indivíduos com maior prestígio e poder social, vão aos poucos legitimando-se
(cria-se a primeira Federação de Umbanda, em 1939, e a academia de Bimba é
reconhecida oficialmente em 1937).
O processo é lento mas, em fins da década de 50, a
Umbanda expande-se para vários outros estados, cria no Rio várias federações e
elege os primeiros políticos umbandistas. A Capoeira ainda é explorada como
"folclore" na Bahia, mas também ganha, como método de luta, cada vez
mais adeptos nas classes médias. Começa a emigração de capoeiristas que vão
ensinar Capoeira Regional em outros estados.
Em fins da década de 60, a Umbanda expande-se
nacionalmente. Sua heterogeneidade ritual e ideológica não impede que seja
praticada em quase todo o Brasil e que conceitos seus se infiltrem até nas
variantes religiosas regionais mais ortodoxas. O governo militar a favorece
como forma de aumentar seu consenso na população. Por outro lado, a Força Aérea
da época fomenta simpósios para homogeneizar a prática da Capoeira. Realizam-se
os primeiros torneios e se começa a visualizá-la, como esporte. Assim, o
governo a reconhece oficialmente em 1972.
Durante a década de 70 e os anos que se seguiram, a
Umbanda se fez presente no Brasil inteiro e tornou-se "a religião
brasileira". A Capoeira Regional (que, por causa do ínfimo número de
academias que ainda praticam Angola, passou a ser a Capoeira) torna-se a
"arte marcial brasileira" e é praticada no Brasil inteiro. Ambas as
variantes, com as transformações sofridas, tendo sido renegados os elementos
negros que inicialmente as caracterizavam, são integradas ao sistema e
legitimadas. O estigma, no entanto, não foi completamente eliminado. Uma
crescente burocracia, através de federações cujos dirigentes são, em geral,
brancos, tenta regulamentar e depurar ainda mais essas variantes. Mas estas,
embora modificadas, ainda têm em seus praticantes individuais grande parte do
caráter popular que lhes deu origem e resistem a encaixar-se nos rígidos moldes
que lhes impõe o sistema.
Ao tentar falar da cultura e dos rituais africanos,
começamos a falar do seu mais divergente elemento: os tambores, e falar deles é
uma tarefa difícil. Os tambores não são apenas tal como os vemos, têm em si
conotações naturais e sobre naturais. Estão ligados aos rituais que se
relacionam às danças, à música e à literatura.
Os escravos nas américas impuseram seus ritmos e
instrumentos, só que alguns destes escravos já eram islâmicos. Fato que
confunde os estudiosos ao se aprofundarem na cultura musical africana.
Apesar de tantos serem os ritmos musicais que
caracterizam a África Negra e mesmo sendo expressiva sua cultura musical nas
mais diversas nações das américas e nas ex-metrópoles, escassa é a bibliografia
para abordar este elemento antropológico.
A civilização negra-africana procede de uma visão
unitária do mundo. Nenhum domínio é autônomo. O mesmo espírito anima e liga a
filosofia, a religião, a sociedade e a arte negra-africana. As artes na África
Negra estão interligadas: o poema à música, a música à dança.
A CULTURA
AFRICANA
Dois mil anos de samba texto
de Abdu Ferraz
Entendida a África como uma parte histórica do globo
terrestre se pode falar em mais de 2 mil anos do Samba A expressão SAMBA é uma
forma verbal de alguns dialetos africanos; para os Bacongos (povos do norte de
Angola) é o imperativo do verbo Cusamba e para os Kimbundos (povos da região
centro-oeste de Angola) é o infinito do mesmo verbo.
Constata-se que os verbos em dialetos africanos não têm a
terminação em r; na sua maioria terminam com a vogal a ou com o hiato ia. O
verbo SAMBAR é uma das tentativas de aportuguesar os dialetos africanos. O fato
tem ocorrido de forma espontânea e natural entre as partes em contato. Neste
caso podemos realçar uma destas palavras dos dialetos africanos aportuguesadas
no Brasil: " BUNDA", o que significa para os Bacongos
"embrulhozinho", "pouquinho", "presente" ... e
para os Kimbundos significa "nádegas". O ECAMBA seria o nome da dança
conhecida como SAMBA; neste caso teremos que ultrapassar as barreiras culturais
e do tempo, procurar entender a religiosidade dos povos africanos antes e
depois do século XV, período em que os Europeus se vêem livres do cerco árabe
dando origem ao mercantilismo.
Antes de mais nada, deveria conceituar o EKAMBA como um
dos movimentos físicos mais praticados nos rituais africanos. Em alguns casos é
para revelar a agonia ou a felicidade. Caracteriza-se por um movimento
conhecido entre os Bacongos de "mityengo" - um dos movimentos físicos
que os Bantos (povos da África Negra) fazem em atos conjugais, que se resumem
no rebolar dos quadris, característico das danças dos países da África Central.
São feitos com tanta perfeição e ardência que tornam-se realmente excitantes.
Os Bantos, quando o assunto é falar com Deus
"Rezar" - "Sambar", faziam uma roda em baixo de um njiango
(uma sombra artificial), onde seus tambores soavam o ritmo kitolo (lamentação).
Daí suas mulheres faziam o EKAMBA (sacudiam os quadris e o corpo todo como se
tirassem a poeira do corpo e os piolhos das cabeças). Na oração, para os
Bantos, não é concebível estar sentado ou de joelhos, mas sim dançando, se é
que tais movimentos possam ser tidos como dança. Se é, não seria qualquer
dança, mas simplesmente a EKAMBA.
Até porque entendê-la como dança é deturpar os fatos
(heresia) e não se pode negar que os movimentos rituais não sejam sensuais,
porém não constituem argumento suficiente para tê-los como dança. Este conceito
de oração "dançada" não foi apagado pelos colonizadores, tanto que
hoje a própria igreja católica teve que admitir em suas cele-brações alguns dos
ritmos e rituais das celebrações africanas (antes de Cristo), que se encaixam
na primeira e terceira parte da celebração dominical Católica Apostólica Romana
(celebração da palavra e ação de graças). Provavelmente, o episódio do EKAMBA à
SAMBA tenha ocorrido há 400 anos.
Hoje, com mais facilidade, se pode montar o cenário do
colapso, se bem que não se tem referência exata do tempo e espaço.
Possivelmente, algum senhor tenha visto seus escravos a rezarem e a pergunta
não teria sido outra senão: _ "o que estão fazendo?" E como estes não
podiam se envergonhar do ato (falar com Deus - Nzambi, Ngana Nzambi, Nzambi
Npungu, Kalunga, Suco, Suco Ngialy, Tata, Otata...)1, certamente tenham
afirmado que estavam a rezar, portanto a sambar. Para o senhor (colonizador),
sem sombras de dúvidas a expressão Samba tenha significado dançar, visto que
estes faziam o EKAMBA. Para qualquer ocidental da época tais gestos não
passavam de uma manifestação animalesca (já que não lhes reconheciam como
possuidores de alguma cultura). Hoje é identidade brasileira. E ainda hoje, uma
das províncias de Angola, UÍGE, habitado pelos Bacongos, conserva uma tradição
milenar: _ guando se perde um ente querido, seus parentes2 e amigos se reúnem
em volta do cadáver, fazendo soar o ritmo kitolo (aí a lama pouco tempo depois
vira poeira).
Os presentes começam a SAMBAR para que Deus tenha em seus
cuidados o ente querido. Normalmente estes começam a "dançar" ao
por-do-sol, e terminam ao amanhecer, momento em que sepultam o cadáver. Os
movimentos e até mesmo os ritmos assemelham-se ao Samba brasileiro tendo como
principal diferença nesta altura a expressão dos rostos de quem as dança,
enquanto o Bacongo cobre-se de panos e chora, a brasileira descobre-se (quase
nua) e o faz por razões alegres.
1 O sinônimo de Deus em três idiomas africanos.
2 O parentesco africano vai até aos bisnetos dos/as
irmãos/ãs do tetra avo.
Estilos Musicais de Regiões Africanas texto de Abdu
Ferraz
KILAPANGA, seu compasso rítmico assemelha-se aos estilos
caribenhos (o que mais se assemelha a tais estilos é a Kizomba/ Zuk). O estilo
é basicamente sustentado pelos tambores (Ngoma, Nsacaia e o Tshololo(shololo)
"grito de festa") e pelas quitaras devidamente rítmicas. Seus
representantes a nível internacional, sem esquecer de outros, são o compositor
e vocalista lutchana Cofi`Olamid e Pepe Kalle.
WALA, estilo musical satírico, diversão e lazer; este
ritmo está presente no Rap Norte Americano. Na África do Sul o estilo foi
internizado pela vocalista "Gn. Mbada" e sobretudo pela compositora e
vocalista "Ivone Xaca_xaca", nos manifestos contra o apartheid. Este
estilo é um dos ritmos africanos que nas duas últimas décadas se transferiu
para os países de expressão inglesa (assemelha-se ao reggae). Na década de 60 o
estilo incorporou os corais negros e protestantes nos EUA; na década de 70 o
estilo é inovado e surge como instrumento de resistência à segregação racial;
nos anos 80 Ivone Xaca_xaca estiava definitivamente a bandeira do estilo Wala
nos países de expressão inglesa. Na mesma época, filmes surgiram retratando a
crueldade do apartheid e eram recheados com coreografias da tribo zwlw (África
do Sul).
KITOLO, é o ritmo tocado para demonstrar a tristeza, a
realização de alguma prece, lamentação, sátiras etc. É muito tocado nos
velórios ao norte de Angola. Estilo característico dos bacongo (povo do antigo
reino do Congo).
SEMBA, sua semelhança ao Samba não é relativamente
ortográfiaca; existe nela um compasso que freqüentemente caracteriza o bom
samba (a presença do cuíca os assemelha). É um dos estilos musicas que
carateriza o povo Kimbundo; atualmente não se pode falar do Semba sem que se
fale do "cota Bonga"(mano Bonga), músico angolano exilado em
Portugal, onde seu ritmo inebria as almas lusitanas, aos brasileiros faz
lembrar o Samba e aos cubanos a Rumba.
KIZOMBA (conhecido como Zuk nas Antilhas) , para não
dizer igual, vamos dizer que ele assemelha-se ao estilo caribenho. O estilo se
identifica muito com as ilhas africanas e das américas; na África, as ilhas de
Cabo verde e São Tome e Príncipe tem garantido a produção deste estilo no
mercado. Luanda, capital de Angola é também a capital da kizomba enquanto
dança; mas por falta de uma política cultural de seu governo esta manifestação
antropológica está se "imigrando" à Lisboa, ao Rio de Janeiro e à
Bahia, onde jovens angolanos encontram espaço, aceitação e uma infra estrutura
bem melhor a que Luanda oferece. Das Antilhas surgiu na década de 80 o fenômeno
Kassav " Mandioca" banda que conquistou a África Austral; tendo como
vocalista o antilhano Jacob d` Voaier cuja voz foi severamente criticada na
Europa, esquecendo-se que em suas cordas vocais estava a África e não a Grécia
ou Roma. Sua voz foi um relâmpago que num instante ao outro se ouvia, do norte
ao sul e do oeste a leste da África Negra, reativando o que a eles pertenceu..
Os Afro-latinos texto de
Abdu Ferraz
Dando-se a tarefa de estudar hábitos e costumes das
Nações que no passado receberam grande quantidade de africanos, percebe-se que
prevaleceram os hábitos e costumes africanos. Entende-se que os colonizadores
apenas foram capazes de colonizar o físico do homem africano e nunca a mente. É
simples entender o fato, até porque o fato em si se explica: enquanto os
invasores esvaziavam o Continente Africano de seus melhores filhos, fazendo-os
escravos nas Américas, não se davam conta de que o produto escravo possuía
hábitos e costumes.Portanto, cultura própria.
Por esta cultura não ser semelhante à cultura Ocidental,
foi por muito tempo entendida como sendo uma manifestação animalesca. Para
Hegel e Coupland, a África não possui história pelo fato de não enxergarem
elementos da cultura greco-romana -"Elenismo" nas manifestações dos
povos em contato.
Claro que Hegel tem comparado duas realidades diferentes
buscando nelas a semelhança e não a identidade, visto que a diferença é o
princípio lógico da identidade. Não achando nelas a semelhança, a conclusão de
Hegel foi certa logi-camente falando, porém, falsa (uma das premissas não era
verdadeira mesmo sendo certa a estruturação lógica do pensamento, filosoficamente
falando).
Se Hegel priorizasse a diferença, certamente teria o
elemento identidade e isso o obrigaria a afirmar que os povos em contato
possuíam cultura própria, e possuir cultura própria implicaria em afirmar que
possuíam história, e possuir história naquele tempo significaria dizer que seus
povos possuíam almas; portanto não deveriam ser escravizados (chocaria contra a
santa e mais pura justiça da época/ clero).
Este fato teve especial cuidado da Igreja e dos
invasores, tanto que desenvolveram a ideologia hoje tida como Barragem dos
Mitos da História da África, impossibilitando a qualquer curioso chegar à
conclusão de que tais povos eram tão humanos quanto seus colonizadores. O mesmo
tem ocorrido com os nativos das Américas. Pobres índios.
Fonte: www.portalafro.com.br
CULTURA AFRICANA
No início do século XV, período da colonização brasileira
foi palco de um cenário muito triste, quando mais de quatro milhões de homens e
mulheres africanos escravizados oriundos de diferentes regiões da África,
cruzaram o oceano Atlântico nos porões de diversos navios negreiros.
Aonde eram tratados como animais desprezíveis e
mercadorias muito valiosas, que ao entraram no país principalmente pelos portos
do Rio de Janeiro, de Salvador, do Recife e de São Luís do Maranhão para se
tornarem escravos na colônia portuguesa.
E devido ao jogo de interesse econômico do reino de
Portugal e de comerciantes brasileiros foi criado um comércio escravagista com
várias etnias reunidas no Brasil com suas culturas, e para evitar que houvesse
rebeliões, os senhores brancos agrupavam os escravos em senzalas, sempre
evitando juntar os originários de mesma nação, por esse motivo houve uma
mistura de povos e costumes, que foram concentrados de forma diferente nos
diversos estados do país com isto deu lugar a um modelo de religião chamado
Candomblé, palavra denominada de Kandombile, significando culto e oração, que
teve no Brasil terreno fértil para sua propagação na tentativa de resgatar a
atmosfera mística da pátria distante pois o contato direto com a natureza fazia
com que atribuíssem todos os tipos de poder a ela e que ligassem seus deuses
aos elementos nela presentes . Diversas divindades africanas foram tomando
força na terra dos brasileiros. O fetiche, marca registrada de muitos cultos praticados
na época, associado à luta dos negros pela libertação e sobrevivência, à
formação dos quilombos e a toda a realidade da época acabaram impulsionando a
formação de religiões muito praticadas atualmente.
O Candomblé foi a religião que mais conservou as fontes
do panteão africano, servindo como base para o assentamento das divindades que
regeriam os aspectos religiosos da Umbanda.
E os deuses do Candomblé têm origem nos ancestrais
africanos divinizados há mais de cinco mil anos, com isto muitos acreditam que
esses deuses eram capazes de manipular as forças naturais, por isso, cada orixá
tem sua personalidade relacionada a um elemento da natureza. O candomblé é
conhecido e praticado, não só no Brasil, como também em outras partes da
América Latina onde ocorreu a escravidão negra, em seu culto, para cada Orixá
há um toque, um tipo de canto, um ritmo, uma dança, um modo de oferenda, uma
forma de incorporação, um local próprio que em seu redor são construídas
casinholas para assentos dos santos, e uma saudação diferente e as suas
reuniões são realizadas de acordo com certos preceitos. As cerimônias são
realizadas com cânticos, em geral, em língua nagô ou yorubá. Os cânticos em
português são em menor número e refletem o linguajar do povo. Há sacrifícios de
animais ao som de cânticos e danças, e a percussão dos atabaques constitui a
base da música, e no Brasil existem diferentes tipos de Candomblé que se
diferenciam pela maneira de tocar os atabaques, pela língua do culto, e pelo
nome dos orixás, o Queto, na Bahia, o Xangô, em Pernambuco, o Batuque, no Rio
Grande do Sul e o Angola, em São Paulo e Rio de Janeiro.
Uma das religiões mais praticadas no Brasil, com maior
propagação na Bahia e no Rio de Janeiro, a Umbanda incorpora os adeptos dos
deuses africanos como caboclos, pretos velhos, crianças, boiadeiros, espíritos
das águas, eguns, exus, e outras entidades desencarnadas na Terra,
sincretizando geralmente as religiões católica e espírita.
O chefe da casa é conhecido como Pai de Santo e seus
filiados são os filhos ou filhas de santo. O Pai de Santo principia a cerimônia
com o encruzamento e a defumação dos presentes e do local. Seguem-se os pontos,
cânticos sagrados para formar a corrente e fazer baixar o santo. Muitos são os
orixás invocados na cerimônia de Umbanda, entre eles Ogun, Oxóssi, Iemanjá,
Exu, entre outros. Também invocam-se pretos velhos, índios, caboclos, ciganos.
A Umbanda absorveu das religiões africanas o culto aos Orixás e o adaptou à
nossa sociedade pluralista, aberta e moderna, pois só assim um culto ancestral
poderia renovar-se no meio humano, sem que a identidade básica dos seus deuses
fosse perdida.
DOM OBÁ
Brasileiro da primeira geração, Cândido da Fonseca
Galvão, Dom Oba que em Ioruba significa rei, nasceu na Vila dos Lençóis no
sertão da Bahia por volta de 1845, filho de africanos forros, e neto do
poderoso Alá a Fin Abiodun o ultimo soberano a manter unido o grande império do
Oyo e por direito de sangue era príncipe africano.
E no período compreendido entre os anos de 1865 a 1870 participou
da guerra do Paraguai, e devido a sua grande bravura foi condecorado como
oficial honorário do exército brasileiro, e ao retornar ao país fixou
residência na cidade do Rio de Janeiro onde sua posição social se tornou no
mínimo complexa, pois era considerado como uma figura folclórica por uma certa
camada da sociedade, e por outro era reverenciado como um príncipe real por
escravos, libertos e homens livres de cor.
Amigo pessoal e protegido de Dom Pedro II, Dom Oba
assumiu nos momentos decisivos do processo de abolição progressiva o papel
histórico de elo entre as altas esferas do poder imperial e as massas populares
que emergiam das relações escravistas com suas figura imponente e seus modos
soberanos, ao se vestir com suas finas roupas preta ou com seu bem preservado
uniforme de alferes do exército brasileiro com sua espada à cinta e seu chapéu
armado com penacho colorido nas ocasiões mais especiais.
Ao defender sua visão alternativa da sociedade e do
próprio processo histórico brasileiro em razão de suas idéias, com sua
linguagem crioula mesclada com o dialeto de Ioruba e latim para uma elite
letrada que não compreendiam os seus discursos e para os escravos, libertos e
homens livre de cor que compartilhavam com suas idéias e contribuíam financeiramente
para a publicação das mesmas que eram lidas nas esquinas e em famílias,
teoricamente Dom Oba era um monarquista acima dos partidos que mantinha uma
política muito bem matizada, cujas idéias não eram de um conservador e nem de
um liberto ao combater ao racismo e ao defender a igualdade entre os homens.
E em razão disto, ele se orgulhava de ser preto e por não
acreditar em superioridade devido ao fato de ser amigos de brancos, e de não
acreditar que houvesse exatamente questão racial, mas uma questão de cultura,
de informação e de refinamento social, fato este que levou o príncipe e os seus
seguidores a formulação pioneira quando da criação de uma estética autônoma de
que a raça negra não era apenas linda, mas superior do que os mais finos
brilhantes.
Fonte: www.infonet.com.br
DOM OBÁ
UM PRÍNCIPE NEGRO NAS RUAS
DO RIO
Dom Obá 2º d’África, ou melhor Cândido da Fonseca Galvão,
como foi batizado, nasceu na Vila de Lençóis, no sertão da Bahia, por volta de
1845.
Filho de africanos forros, brasileiro de primeira
geração, era, ao mesmo tempo, por direito de sangue, príncipe africano, neto,
ao que tudo indica, do poderoso Aláafin Abiodun, o último soberano a manter
unido o grande império de Oyo na segunda metade do século 18.
Príncipe guerreiro, Dom "Obá" (que quer dizer
"rei" em ioruba) lutou na Guerra do Paraguai (1865-70), de onde saiu
oficial honorário do Exército Brasileiro, por bravura. De volta ao país, fixou
residência no Rio, onde sua posição social era, no mínimo complexa. Tido pela
sociedade de bem como um homem meio amalucado, uma figura folclórica, era, ao
mesmo tempo reverenciado como um príncipe real por escravos, libertos e homens
livres de cor.
Amigo pessoal, uma espécie de protegido de Dom Pedro 2º,
Dom Obá assumiu, nos momentos decisivos do processo de abolição progressiva, o
papel histórico, até então insuspeito de elo entre as altas esferas do poder
imperial e as massas populares que emergiam das relações escravistas.
Sua figura imponente de homem de 2m de altura, seus modos
de soberano, como que captavam a atenção dos contemporâneos, embora poucos
estivessem realmente preparados para acreditar no que viam. Um príncipe
afro-baiano a perambular pelas ruas do velho Rio, barba à moda de Henrique 4º,
muito bem vestido em suas "finas roupas pretas", como foi descrito,
de fraque, cartola, luvas brancas, guarda-chuva, bengala, pince-nez de aro de
ouro.
Ou, em ocasiões mais especiais, muito ereto e importante
em seu bem preservado uniforme de alferes do Exército, com seus galões e
dragonas douradas, sua espada à cinta, seu chapéu armado com penachos
coloridos, seu "pacholismo admirável".
Dom Obá, para ser breve, defendia uma visão alternativa
da sociedade e do próprio processo histórico brasileiro. Talvez pelo conteúdo
mesmo de suas idéias, talvez por sua linguagem crioula, colorida com
expressivas pitadas de ioruba e mesmo latim, a verdade é que seu discurso
parecia opaco, incompreensível para a elite letrada de então.
Escravos, libertos e homens livres de cor, contudo, não
apenas compartilhavam de suas idéias, como contribuíam financeiramente para a
publicação das mesmas e reuniam-se nas "quitandas ou em família" para
ler os artigos.
O que defendia este homem e porque parecia interessar
tanto seus leitores? Sendo um príncipe, era Dom Obá, ao menos teoricamente, um
monarquista acima dos partidos, nem inteiramente conservador nem liberal,
talvez por achá-los muito parecidos uns com os outros, inspirados apenas por
interesses materiais e casuísticos.
Por essas e outras, tinha o príncipe posições políticas
muito matizadas. "Por isso sou conservador para conservar o que for bom e
liberal para reprimir os assassinatos que têm havido nesta atualidade a mando
de certos potentosos", quer dizer "potentados", pessoas muito
influentes e poderosas.
O combate ao racismo, a defesa da igualdade fundamental
entre os homens, foi um dos pontos mais importantes de seu pensamento e da
prática, explicava, "por Deus mandar que quando o varão tiver valor não se
olharia a cor". Contrariava não apenas concepções senhoriais, contrariava a
própria ciência fin de siècle com suas poderosas filosofias evolucionistas e
etnocêntricas.
A miscigenação brasileira, para o príncipe, nada tinha a
ver com idéias evolucionistas de inevitabilidade, como pensou Nina Rodrigues;
ou desejabilidade, como pensou Sílvio Romero, do "branqueamento".
Tinha a ver, ao contrário, com um sentimento de igualdade fundamental entre os
homens. O príncipe orgulhava-se de "preto ser" e, por não acreditar
em superioridades, era "amigo dos brancos e (de) todos os varões sensatos
e conhecedores (...) que o valor não está na cor".
Saída do mesmo universo cultural, uma carta de apoio ao
príncipe lembra o absurdo da discriminação, "visto da preta cor ser
assemelhada todas as raças".
Outra carta, em 1887, chega a formular um projeto de
"enegrecimento", antes que de "embranquecimento" da nação.
Para o missivista, súdito de Dom Obá, a raça negra já não era problema, mas a
própria solução. Por isso apoiava a nomeação do príncipe como embaixador
plenipotenciário na África Ocidental, onde prestaria relevantes serviços,
"mandando transportar colonos africanos, para nunca mais sofrer o Brasil
decadência na sua exportação de fumo e café (...) e o açúcar e o algodão nunca
deixem de fertilizar o solo onde nascera o mesmo Príncipe Obá 2º d’África, de
Abiodon neto". Também aqui a discriminação é tida por absurda, sendo,
afinal, "cada qual como Deus o fez".
O próprio príncipe publica, vez por outra, poesia
abolicionista e antidiscriminatória. "Não é defeito preto ser a cor/É
triste pela inveja roubar-se o valor", reza uma delas. Para ele, "o
certo é que o Brasil deve deseistir (da) questão da cor, pois que a questão é
de valor e quando o varão tiver valor não se olhará a cor".
Na verdade, para Dom Obá, não parece existir exatamente
uma "questão racial", mas uma questão de cultura, de informação, de
refinamento social. Daí, muitas vezes, o seu desconsolo com a pátria amada,
"um país tão novo onde completamente não reina a severa civilização
colimada, porque ainda há quem apure a tolice (...) do preconceito de
cor".
O príncipe, como seus seguidores, chega a formulações
pioneiras também no sentido da criação de uma estética autônoma, na linha do
black is beautiful norte-americano dos anos 60. Na verdade, segundo um de seus
súditos, a raça negra não apenas era linda, era "superior do que os mais
finos brilhantes".
Às vezes parece existir, no fundo, a idéia de
superioridade negra. Não no sentido biológico ou intelectual, parece, mas no
sentido moral, em função da vivência histórica de diáspora. Sua "humilde
cor preta" era, assim, "cada qual como Deus, Maria Santíssima,
virgem, sempre virgem sem ser pesada aos cofres públicos, sem ser assassina da
humanidade". Tudo isso, concluía, "por preta ser a cor
invejada".
Fonte:
www.casaruibarbosa.gov.br
DOM OBÁ
UM PRÍNCIPE NEGRO NAS RUAS
DO RIO
Nascido no sertão da Bahia, mais precisamente, na Vila de
Lençóis, por volta de 1845, Cândido da Fonseca Galvão , futuro Dom Obá II
d'África tem sua vida reconstruída, com engenho e arte , por Eduardo Silva,
chefe do Setor de História da Fundação Casa de Rui Barbosa , no Rio de Janeiro.
O livro, Dom Obá II D'África, O Príncipe do Povo. Vida ,
tempo e pensamento de um homem livre de cor, acompanha de perto , este filho de
africano forro , brasileiro de primeira geração nas suas idas e vindas pelo
vasto território nacional. "Ao fazer uma investigação histórica sobre a
vida, o tempo e o pensamento dessa figura ;hoje esquecida, Eduardo Silva
recupera aspectos importantes do cotidiano, da ambiência cultural e do universo
simbólico predominantes entre escravos libertos e homens de cor do Brasil do
século XIX".
Entre 1865 e 1869 , quase 3.000 escravos foram
alforriados para "assentar praça" na guerra. Galvão não fazia parte
deste grupo, mas de um grupo minoritário, o dos voluntários de fato. Tanto para
os primeiros , como para os segundos o alistamento abria inúmeras
possibilidades de ascender socialmente. Assim, para o Príncipe, a conquista da
cidadania teve início concreto com o alistamento militar e prosseguiu com o
processo de abolição progressiva. O baiano Galvão terminou a guerra do Paraguai
como oficial honorário do Exército brasileiro, por bravura.
Passou a morar no Rio de Janeiro e, gradualmente, marcou
presença na sociedade da época. Para alguns era meio louco , um desses personagens
típicos que cada cidade costuma ter; para outros, escravos , libertos e homens
livres de cor era um príncipe real. "Dom Obá II d'África reinava não
simplesmente pela tradição , mas através de poderes extraordinários que lhe
eram atribuídos por sua larga "tribo de vassalos". Tais poderes
incluíam, certamente, seus legados reais de Abiodun, seus feitos e medalhas de
guerra, seu relacionamento com D. Pedro II e, acima de tudo talvez , sua
capacidade , ou axé, para a ação política dentro dos quadros reinantes , para a
real politik de então". (p.126)
Silva, ao acompanhar os movimentos desse príncipe
afro-brasileiro que perambulava pelas ruas do Rio Antigo, segue de perto a
própria história político-social do país. História, que como poucas, soube
esconder do público personagens negros de importância .
Dom Obá II d'África nos seus escritos , fortemente
rebuscados, defendia idéias como a de uma sociedade alternativa, a igualdade
fundamental do gênero humano. Chegou a propor a abolição total já em 1882. A
discriminação racial era para ele um completo absurdo, daí atacar energicamente
o racismo. Ler a história de Dom Obá II D'África é ter em mãos um livro editado
com extremo cuidado, é conhecer um personagem fascinante do Brasil do século
XIX e inferir que o "avesso" de nossa história tem muito a nos
revelar e ensinar.
ESCRAVA ANASTÁCIA
Anastácia por ser muito
bonita, terminou sendo, também, sacrificada pela paixão bestial de um dos
filhos de um feitor, não sem antes haver resistido bravamente o quanto pôde a
tais assédios; depois de ferozmente perseguida e torturada a violência sexual
aconteceu.
Apesar de toda circunstância adversa, Anastácia não deixou de
sustentar a sua costumeira altivez e dignidade, sem jamais permitir que lhe
tocassem, o que provocou o ódio dos brancos dominadores, que resolvem
castigá-la ainda mais, colocando-lhe no rosto uma máscara de ferro, que só era
retirada na hora de se alimentar, suportando este instrumento de supremo
suplício por longos anos de sua dolorosa, mas heróica existência.
As mulheres e as filhas dos senhores de escravos eram as
que mais incentivavam a manutenção de tal máscara, porque morriam de inveja e
de ciúmes da beleza da negra .
Anastácia, já muito
doente e debilitada, é levada para o Rio de Janeiro onde vem a falecer, sendo
que seus restos mortais foram sepultados na Igreja do Rosário que, destruída
por um incêndio, não se teve como evitar a destruição também dos poucos
documento que poderiam nos oferecer melhores e maiores informações referentes à
escrava Anastácia " A
Santa ", além da imagem que a história ou lenda deixou em
volta de seu nome e na sua postura de mártir e heroína, ao mesmo tempo.
ESCRAVIDÃO
A escravatura, também nomeada de escravidão, esclavagismo
ou escravagismo no Brasil, é a prática social em que um ser humano tem direitos
de propriedade sobre outro designado por escravo, ao qual é imposta tal
condição por meio da força. Desde os tempos mais remotos, o escravo é
legalmente definido como uma mercadoria cujo dono ou comerciante pode comprar,
vender, dar ou trocar por uma dívida, sem que o escravo possa exercer qualquer
direito e objeção pessoal ou legal. A escravidão da era moderna está baseada
num forte preconceito racial, segundo o qual o grupo étnico ao qual pertence o
comerciante é considerado superior.
Há diversas ocorrências de escravatura sob diferentes
formas ao longo da história, praticada por civilizações distintas. No geral, a
forma mais primária de escravatura se deu à medida que povos com interesses
divergentes guerrearam, resultando em prisioneiros de guerra. Apesar de na
Antigüidade ter havido comércio escravagista, não era necessariamente esse o
fim reservado a esse tipo de espólio de guerra. Ademais, algumas culturas com
um forte senso patriarcal reservavam à mulher uma hirerarquia social semelhante
ao do escravo, negando-lhe direitos básicos que constituiriam a noção de
cidadão.
A escravidão era uma situação aceita e logo tornou-se
essencial para a economia e para a sociedade de todas as civilizações antigas,
embora fosse um tipo de organização muito pouco produtivo. A Mesopotâmia, a
Índia, a China e os antigos egípcios e hebreus utilizaram escravos. Nas
civilizações pré-colombianas (asteca, inca e maia) os escravos eram empregados
na agricultura e no exército. Para os gregos, tanto as mulheres como os
escravos não possuiam direito de voto. Entre os incas, os escravos recebiam uma
propriedade rural, na qual plantava para o sustento de sua família, reservando
ao imperador uma parcela maior da produção em relação aos cidadãos livres. Muitos
dos soldados do antigo império romano eram ex-escravos.
O comércio de escravos passou a ter rotas
intercontinentaís, no momento em que os europeus começaram a colonizar os
outros continentes, no século XVI e, por exemplo, no caso das Américas, em que
os povos locais não se deixaram subjugar, foi necessário importar mão-de-obra,
principalmente de África.
Nessa altura, muitos reinos africanos e árabes passaram a
capturar escravos para vender aos europeus.
Com surgimento do ideal liberal e da ciência econômica na
Europa, a escravatura passou a ser considerada pouco produtiva e moralmente
incorreta deu lugar ao surgimento do abolicionismo, em meados do século XIX.
A escravidão é pouco produtiva porque como o escravo não
tem propriedade sobre sua própria produção, ele não é estimulado a produzir já
que não irá resultar em um incremento no bem-estar material dele mesmo.
FIM DA ESCRAVIDÃO No Brasil
Em 1850, Eusébio de Queiroz motivou a lei contra o
tráfico negreiro, entre outras coisas, pelo medo de o grande número de negros (
3.500.000 para 1.500.000 brancos ) viesse a perturbar a ordem estabelecida.
Queiroz chegou a propor a contratação de um exército de mercenários
estrangeiros para manter submissos os escravos, pois os soldados brasileiros se
recusavam a cumprir tal oficio. Na verdade, boa parte dos escravos estavam se
insubordinando.
Em 1823, cantava-se nas ruas de Pernambuco: Marinheiros e
caiados,Todos devem se acabar,Porque só pardos e pretos,O país hão de
habilitar!
Em 1821, os pretos ocuparam Vila Rica, após sangrentos
combates, declarando sua liberdade e igualdades aos brancos.
Em 1849, em Queimados, Espíritos Santo, 200 escravos
tentaram um levante, visando atingir todo o estado.
Lei do Ventre Livre - Em 28 de setembro de 1871 o governo
conservador do Visconde do Rio Branco promulga a Lei do Ventre Livre. De poucos
efeitos práticos, a lei dá liberdade aos filhos de escravos, mas deixa-os sob
tutela dos senhores até 21 anos de idade.
Lei dos Sexagenários - Em 28 de setembro de 1885 o
governo imperial promulga a Lei Saraiva-Cotegipe, conhecida como Lei dos
Sexagenários, que liberta os escravos com mais de 65 anos. A decisão é
considerada de pouco efeito, pois a expectativa de vida do escravo não
ultrapassa os 40 anos.
Abolição no Ceará - A campanha abolicionista no Ceará
ganha a adesão da população pobre. Os jangadeiros encabeçam as mobilizações,
negando-se a transportar escravos aos navios que se dirigem ao sudeste do país.
Apoiados pela Sociedade Cearense Libertadora, os "homens do mar"
mantêm sua decisão, apesar das fortes pressões governamentais e da ação
repressiva da polícia. O movimento é bem-sucedido: a vila de Acarape (CE),
atual Redenção, é a primeira a libertar seus escravos, em janeiro de 1883. A
escravidão é extinta em todo o território cearense em 25 de março de 1884.
O Brasil foi o último país do continente a abolir
formalmente a escravidão mas, a liberdade veio mesmo por motivos econômicos.
Entre estes, os historiadores apontam a necessidade da
criação de um mercado consumidor para os produtos industrializados,
provenientes da Inglaterra. Os portos brasileiros foram, então, abertos aos
imigrantes europeus, tendo sido permitido aos escravos alforriados, ou
libertos, que retornassem à África.
Em 1888, a Princesa Isabel assinou a lei que abolia a
escravidão. Lei Áurea - Em 13 de maio de 1888, o gabinete conservador de João
Alfredo apresenta, e a princesa Isabel assina, a Lei Áurea, extinguindo a
escravidão no país. A decisão, porém, não agrada aos latifundiários, que exigem
indenização pela perda dos "bens". Como isso não acontece, passam a
apoiar a causa republicana.Em 1899 partiu o último navio - " o Aliança
" - levando de volta à África um grupo de ex-escravos. Uma criança que
seguiu para a África naquele navio, Maria Romana da conceição, chegou a visitar
o Brasil em 1963.
A lei Áurea não indenizou os escravos pelo trabalho
realizado. Assim, abandonadas a própria sorte, a maioria caiu na miséria da
mendicância e vão compor a camada mais miserável das classes populares .
Fonte: www.zbi.vilabol.uol.com.br
FIM DA ESCRAVIDÃO no Brasil
Desde o início do século XIX, a questão da escravatura é
uma fonte constante de atrito entre o Brasil e a Inglaterra. No interior do
país, a abolição da escravatura é defendida por grupos de liberais, mas não
chega a ter repercussão na elite agrária, dependente do trabalho escravo. O fim
efetivo do tráfico negreiro é o primeiro grande passo para a transformação real
da estrutura das relações de trabalho no Brasil, mantidas praticamente intactas
desde a colonização.
Fim do tráfico
Já em 1810, ao assinar o Tratado de Comércio e Navegação
com a Inglaterra, dom João VI compromete-se com o fim do comércio de escravos.
As negociações arrastam-se por 15 anos, devido à ferrenha oposição dos grandes
proprietários de terras. Em 1825 os ingleses exigem que o Brasil marque uma
data para a extinção do tráfico. Um decreto imperial de 1827 garante a
interrupção do comércio negreiro no prazo de quatro anos. Em 7 de novembro de
1831 é votada a lei que determina o fim do tráfico. Nunca posta em prática, o
episódio dá origem à expressão "para inglês ver".
Lei Eusébio de Queiroz
Em 8 de agosto de 1845 o Parlamento inglês promulga a Lei
Bill Aberdeen, que proíbe o tráfico em todo o mundo e arroga ao Reino Unido o
dever e o direito de aprisionar qualquer navio suspeito de carregar escravos.
No Brasil, o fim do tráfico negreiro é definido pela Lei Eusébio de Queiroz,
aprovada em 4 de setembro de 1850 e complementada pela Lei Nabuco de Araújo, de
1854. Os últimos 209 escravos trazidos para o Brasil desembarcam em Serinhaém
(PE), em 1855.
Conseqüências do fim do
tráfico
Em 1856 já não há entradas de escravos no Brasil. Logo
aparecem as primeiras reclamações sobre a falta de "braços" para a
lavoura e a carestia das "peças" negras. Alguns fazendeiros chegam a
tentar a reprodução "racionalizada" da população escrava, num sistema
semelhante ao utilizado nas plantations norte-americanas. Mas a experiência não
vinga por exigir grandes gastos com a manutenção dos "reprodutores".
O fim do tráfico negreiro estimula a imigração de europeus, inclusive de
operários qualificados, e libera grandes quantidades de capitais, até então
empregados no comércio de escravos - cerca de 1,9 milhão de libras esterlinas
por ano. Esses dois fatores são determinantes para a diversificação econômica
do país.
Campanha abolicionista
O Partido Liberal compromete-se publicamente com a causa
abolicionista. A campanha cresce após a Guerra do Paraguai com a adesão dos
militares. No início da década de 80 é criada a Sociedade Brasileira contra a
Escravidão e a Associação Central Abolicionista, no Rio de Janeiro, agremiações
políticas que reúnem figuras proeminentes do Império, como José do Patrocínio,
Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Luís Gama e André Rebouças. Em 1887, nas fazendas,
começam as fugas em massa de escravos. São apoiadas pelos abolicionistas e o
Exército recusa-se a perseguir os fugitivos.
Lei do Ventre Livre
Em 28 de setembro de 1871 o governo conservador do
visconde do Rio Branco promulga a Lei do Ventre Livre. De poucos efeitos práticos,
a lei dá liberdade aos filhos de escravos, mas deixa-os sob tutela dos senhores
até 21 anos de idade.
Abolição no Ceará
A campanha abolicionista no Ceará ganha a adesão da
população pobre. Os jangadeiros encabeçam as mobilizações, negando-se a transportar
escravos aos navios que se dirigem ao sudeste do país. Apoiados pela Sociedade
Cearense Libertadora, os "homens do mar" mantêm sua decisão, apesar
das fortes pressões governamentais e da ação repressiva da polícia. O movimento
é bem-sucedido: a vila de Acarape (CE), atual Redenção, é a primeira a libertar
seus escravos, em janeiro de 1883. A escravidão é extinta em todo o território
cearense em 25 de março de 1884.
Lei dos Sexagenários
Em 28 de setembro de 1885 o governo imperial promulga a
Lei Saraiva-Cotegipe, conhecida como Lei dos Sexagenários, que liberta os
escravos com mais de 65 anos. A decisão é considerada de pouco efeito, pois a
expectativa de vida do escravo não ultrapassa os 40 anos.
Lei Áurea
Em 13 de maio de 1888, o gabinete conservador de João
Alfredo apresenta, e a princesa Isabel assina, a Lei Áurea, extinguindo a
escravidão no país. A decisão, porém, não agrada aos latifundiários, que exigem
indenização pela perda dos "bens". Como isso não acontece, passam a
apoiar a causa republicana. Os escravos, por seu lado, ficam abandonados à
própria sorte. Marginalizados pela sociedade, vão compor a camada mais
miserável das classes populares.
FIM DO TRÁFICO NEGREIRO
Pressão Inglesa Para o Fim
do Tráfico Negreiro
Os interesses do Governo da
Inglaterra em relação à extinção do tráfico negreiro intercontinental estiveram
presentes no Brasil desde a instalação da Corte portuguesa no Rio de Janeiro. A
princípio a Inglaterra agiu buscando restringir as áreas de atuação do tráfico
que entendia ser ilícito.
A emancipação política do Brasil
fez a Inglaterra, mediadora na questão do reconhecimento, voltar à carga.
Qual seria o motivo do interesse
inglês em defender o fim do tráfico e da escravidão? Certamente não apenas a
pressão da opinião pública ou razões puramente humanitárias. Como o próprio
Canning mencionava em seus despachos, havia importantes interesses econômicos.
A proibição inglesa do tráfico de escravos para suas colônias nas Antilhas,
produtoras de açúcar, ocasionou a diminuição da mão-de-obra e,
conseqüentemente, o encarecimento do açúcar ali produzido. O açúcar do Brasil,
beneficiado pela manutenção do tráfico e pelo uso da mão-de-obra escrava,
obteria preços mais baixos no comércio internacional e as colônias inglesas
seriam prejudicadas.
Apesar da pressão inglesa, o
Brasil não tinha condições de acabar com o tráfico em tão pouco tempo. A
mão-de-obra escrava era responsável não só pela lavoura mas também por outros
trabalhos. Além disso a extinção do tráfico negreiro afetaria os grandes
proprietários de escravos e terras, justamente a camada social que sustentava o
Império brasileiro.
Neste contexto, a Inglaterra,
temendo que a abolição acarretasse o fim da Monarquia do Brasil, não impôs o
fim do tráfico como primeira condição para o reconhecimento da Independência,
dando ao Brasil um prazo para isso. A preservação da Monarquia representava,
para Canning, a manutenção de uma ligação entre a América independente e a
Europa. Era necessária a permanência de D. Pedro I no trono para evitar a
fragmentação, como já ocorrera na América espanhola, e conservar a integridade
do território nacional.
Quando a Assembléia voltou a
reunir-se, em 1826, tratou de evitar a interferência da poderosa Inglaterra na
questão. O Legislativo, composto por proprietários de escravos e de terras
responsáveis pelas mudanças que ocorreram com o 7 de Setembro, temia o que
estava por vir. Por esta razão, cautelosa, a Câmara apresentou um projeto
proibindo a entrada de escravos dentro de um período de 14 anos. Uma comissão,
analisando o texto, percebeu que este prazo não agradaria a Inglaterra e, por
isto, reduziu-o para 6 anos.
Enfim, neste contexto de pressão
D. Pedro I assinou a Convenção de 1826. No artigo Iº definia-se um prazo de
três anos para extingüir o tráfico nacional, que, após expirado seria
considerado pirataria. Nos demais artigos o Brasil concordava em manter os
tratados anteriores (anglo-portugueses) e instituíam-se duas comissões mistas,
uma no Rio de Janeiro e outra em Serra Leoa na África, com a finalidad
e de resolver questões relativas a apresamentos, garantindo a liberdade dos africanos encontrados nesta situação.
A Convenção foi ratificada a 13
de março de 1827, transformando automaticamente o tráfico nacional em pirataria
a partir de 13 de março de 1830. Esta situação gerou um grande desconforto à
Câmara, que condenaria a atitude do Governo imperial questionando-o por ceder a
compromissos que, no seu entender, prejudicavam o Brasil.
Ganga Zumba
Ganga Zumba foi o primeiro
grande chefe conhecido do Quilombo de Palmares. Era tio de Zumbi e
celebrizou-se por ter assinado um tratado de paz com o governo de Pernambuco.
Em 1677, sob sua chefia, Palmares
travou dura guerra contra a expedição portuguesa de Fernão Carrilho. Nesta
batalha, as tropas da coroa fizeram 47 prisioneiros, entre os quais dois filhos
de Ganga Zumba _Zambi e Acaiene_, netos e sobrinhos. Um de seus filhos, Toculo,
foi morto na luta. O próprio Ganga Zumba foi ferido por uma flecha mas escapou.
Em 1678, o governador Pedro de
Almeida fez a primeira proposta de paz a Ganga Zumba, oferecendo ''união, bom
tratamento e terras'', além de prometer devolver ''as mulheres e filhos'' de
negros que estivessem em seu poder.
Em junho de 1678, o oficial
enviado a Palmares para levar a proposta retornou a Recife, à frente de um
grupo de 15 palmarinos, entre os quais se encontravam três filhos de Ganga
Zumba, recebidos pelo governador Almeida.
Em troca da paz, os palmarinos
pediam liberdade para os nascidos em Palmares, permissão para estabelecer
''comércio e trato'' com os moradores da região e um lugar onde pudessem viver
''sujeitos às disposições'' da autoridade da capitania. Prometiam entregar os
escravos que dali em diante fugissem e fossem para Palmares.
Em novembro do mesmo ano, Ganga
Zumba foi a Recife assinar o acordo. É cedida a ele e seus partidários a região
de Cucaú, distante 32 km de Serinhaém.
Parte dos palmarinos, liderados
por Zumbi, são contrários ao acordo de paz e se recusam a deixar Palmares. Em Cucaú,
vivendo sob forte vigilância da autoridade portuguesa e hostilizado pelo
moradores das vilas próximas, Ganga Zumba vê frustrada sua iniciativa. Morreu
envenenado por um partidário de Zumbi.
Fonte:
www1.folha.uol.com.br
Ganga Zumba
A história comete uma injustiça
quando conta a saga do Quilombo dos Palmares. Nela, Zumbi aparece como o grande
e único personagem na luta contra o governo escravocrata. A verdade é que
Palmares só foi o que foi graças a Ganga Zumba, o grande estadista do quilombo.
Pouco se sabe dele. Era um negro
africano alto e forte que chegou a Palmares por volta de 1630. Nesta época,
Palmares era formado por povoados, os mocambos (mukambo é esconderijo no
dialeto banto), Ganga Zumba sabia que um quilombo unido dificilmente seria
vencido e procurou os líderes locais.
Reuniu os onze maiores mocambos
em uma confederação e foi eleito comandante geral. E assim, iniciou-se o
período mais próspero e feliz da existência de Palmares. Porém para tentar
acabar com as tentativas de invasão que não cessavam e que obrigavam os
habitantes de Palmares a viverem sempre na expectativa de uma guerra, Ganga
Zumba, em 1678, decidiu negociar uma paz duradoura com os brancos.
Zumbi e a maioria do povo do
quilombo não acreditaram na paz dos brancos.
Foi a primeira discórdia dentro
do quilombo. E assim, Ganga Zumba, no dia 5 de fevereiro de 1678, acompanhado
de 400 quilombolas, foi para Recife e depois rumo a Cucaú onde, depois de
conhecer o local onde se instalariam, percebeu que caíra numa armadilha.
Despediu-se de seus homens
mandando-os e volta a Palmares e se matou tomando um licor envenenado.
Fonte:
www.capoeirasuldabahia.com.br
Ganga Zumba
O Grande Chefe
A história comete uma injustiça
quando conta a saga do Quilombo dos Palmares. Nela, Zumbi aparece como o grande
e único personagem na luta contra o governo escravocrata. A verdade é que
Palmares só foi o que foi graças a Ganga-Zumba, o grande estadista do quilombo.
Pouco se sabe dele. Era um negro
africano alto e forte que chegou a Palmares por volta de 1630. Nesta época,
Palmares era formado por povoados, os mocambos (mukambo é esconderijo no
dialeto banto), Ganga Zumba sabia que um quilombo unido dificilmente seria
vencido e procurou os líderes locais.
Reuniu os onze maiores mocambos
em uma confederação e foi eleito comandante geral. E assim, iniciou-se o
período mais próspero e feliz da existência de Palmares. Porém para tentar
acabar com as tentativas de invasão que não cessavam e que obrigavam os
habitantes de Palmares a viverem sempre na expectativa de uma guerra, Ganga
Zumba, em 1678, decidiu negociar uma paz duradoura com os brancos.
Zumbi e a maioria do povo do
quilombo não acreditaram na paz dos brancos.
Foi a primeira discórdia dentro
do quilombo. E assim, Ganga Zumba, no dia 5 de fevereiro de 1678, acompanhado
de 400 quilombolas, foi para Recife e depois rumo a Cucaú onde, depois de
conhecer o local onde se instalariam, percebeu que caíra numa armadilha.
Despediu-se de seus homens
mandando-os e volta a Palmares e se matou tomando um licor envenenado.
Fonte:
capoeirasuldabahiasp.br.tripod.com
Ganga Zumba
Primeiro grande chefe do Quilombo
dos Palmares que era tio de Zumbi, que em 1677 chefiou duas duras batalhas
contra a expedição portuguesa de Fernão Carrilho que aprisionou diverso
guerreiro, e que entre os quais se encontravam Zambi e Acaiene, e no ano de
1678 Ganga Zumba recebeu um oficial enviado pelo governador Pedro de Almeida
com uma proposta de paz em que oferecia união, um bom tratamento, terras e uma
promessa de devolver as mulheres e filhos que estavam em seu poder.
E ao retornar a cidade de Recife
o oficial seguiu em companhia de alguns palmarianos que levavam os pedidos de
liberdade para os negros nascidos em Palmares, permissão para estabelecerem o
comércio com os moradores da região, de um lugar onde pudessem viver e a
promessa de entregar os negros que daquele momento em diante quanto fugissem e
fossem presos os mesmos deveriam ser encaminhados para os Palmares. E ao rumar
para a cidade de Recife no mês de Novembro sem os partidários de Zumbi para
assinar o acordo de paz, Ganga Zumba e seus partidários ficaram hospedados na
região de Cucaú perto de Serinhaém sob forte vigilância das autoridades
portuguesas e hostilizado pelos moradores das vilas próximas, fato este que
acabou frustrando a sua iniciativa, e ao retornar aos Palmares Ganga Zumba
acabou sendo envenenado por um partidário de Zumbi ao apresentar um tratado de
paz elaborado por Pedro de Almeida com objetivo de quebrar a unidade dos
Palmares
Fonte:
www.segal1945.hpg.ig.com.br
Ganga Zumba
Ganga Zumba, ou Grande Senhor, foi o primeiro líder do Quilombo dos
Palmares, governando entre 1670 e 1678. Foi o antecessor de seu sobrinho Zumbi.
Sobre sua vida foi feito um filme homônimo, dirigido por Cacá Diegues e que
contou com a participação do músico Cartola.
História
Ganga Zumba foi o primeiro líder do Quilombo dos Palmares, ou Janga
Angolana, no atual estado de Alagoas, Brasil. Zumba era um escravo que escapou
do cativeiro nos canaviais e assumiu uma posição como herdeiro do reino de Palmares
e o título de Ganga Zumba. Apesar de alguns documentos portugueses lhe darem
este nome e o traduzirem como "Grande Senhor", ele provavelmente não
está correto. Entretanto, uma carta endereçada a ele pelo governador de
Pernambuco em 1678, que se encontra hoje nos Arquivos da Universidade de
Coimbra, chama-o de Ganazumba, que é a melhor tradução de Grande Lorde (em
Kimbundu), e portanto o seu nome correto.
Os quilombos ou mocambos eram
refúgios de escravos foragidos, principalmente de origem angolana (Angola), que
se refugiavam no interior do Brasil, principalmente na região montanhosa de
Pernambuco. À medida que seu número foi crescendo, eles formaram assentamentos
chamados de "mocambos". Gradualmente diversos mocambos se juntaram no
chamado Quilombo dos Palmares, ou Janga Angolana, sobre o comando do Rei Ganga
Zumba ou Ganazumba, que talvez tenha sido eleito pelos lideres dos mocambos que
formavam Palmares. Ganga Zumba, que governava a maior das vilas, Cerro dos
Macacos, presidia o conselho de chefes dos mocambos e era considerado o Rei de
Palmares. Os outros 9 assentamentos eram comandados por irmãos, filhos ou
sobrinhos de Gunga Zumba. Zumbi dos Palmares era chefe de uma das comunidades e
seu irmão Andalaquituche comandava outra.
Por volta dos anos de 1670 Ganga
Zumba tinha um palácio, três esposas, guardas, ministros e súditos devotos no
"castelo" real chamado "Macaco" em homenagem ao animal que
havia sido morto no local. O complexo do castelo era formado por 1.500 casas
que abrigavam sua família, guardas e oficiais que faziam parte de nobreza. Ele
recebia o respeito de um Monarca e as honras de um Lorde.
Em 1678, Ganga Zumba aceitou um
tratado de paz oferecido pelo Governador Português de Pernambuco, o qual
requeria que os habitantes de Palmares se mudassem para o Vale do Cucau. O
tratado foi desafiado por Zumbi, um dos sobrinhos de Ganga Zumba, que se
revoltou contra ele. Na confusão que se seguiu Ganga Zumba foi envenenado,
muito provavelmente por um dos seus, por fazer um tratado com os portugueses.
Os que se mudaram para o Vale do Cucau foram reescravizados pelos Portugueses.
A resistência aos Portugueses continuou com Zumbi.
Fonte:
pt.wikipedia.org
TRABALHO
ESCRAVO NA
HISTÓRIA DO BRASIL
Os castigos corporais são comuns, permitidos por lei e
com a permissão da Igreja. As Ordenações Filipinas sancionam a morte e
mutilação dos negros como também o açoite. Segundo um regimento de 1633 o
castigo é realizado por etapas: depois de bem açoitado, o senhor mandará picar
o escravo com navalha ou faca que corte bem e dar-lhe com sal, sumo de limão e
urina e o meterá alguns dias na corrente, e sendo fêmea, será açoitada à guisa
de baioneta dentro de casa com o mesmo açoite.
Outros castigos também são
utilizados: retalhamento dos fundilhos com faca e cauterização das fendas com
cera quente; chicote em tripas de couro duro; a palmatória, uma argola de
madeira parecida com uma mão para golpear as mãos dos escravos; o pelourinho,
onde se dá o açoite: o escravo fica com as mãos presas ao alto e recebe
lombadas de acordo com a infração cometida
Porque a economia colonial e
imperial baseou-se no trabalho escravo?
O latifúndio monocultor no Brasil
exigia uma mão-de-obra permanente.
Era inviável a utilização de portugueses assalariados, já que a intenção não era vir para trabalhar, e sim para se enriquecer no Brasil.
Era inviável a utilização de portugueses assalariados, já que a intenção não era vir para trabalhar, e sim para se enriquecer no Brasil.
O sistema capitalista nascente
não tinha como pagar salários para milhares de trabalhadores, além do que, a
população portuguesa que não chegava aos 3 milhões, era considerada reduzida
para oferecer assalariados em grande quantidade.
Quem foi utilizado como escravo
nos períodos colonial e imperial?
Embora o índio tenha sido um
elemento importante para formação da colônia, o negro logo o suplantou, sendo
sua mão-de-obra considerada a principal base, sobre a qual se desenvolveu a
sociedade colonial brasileira.
Na fase inicial da lavoura
canavieira ainda predominava o trabalho escravo indígena. Parece-nos então que
argumentos tõo amplamente utilizados, como inaptidão do índio brasileiro ao
trabalho agrícola e sua indolência caem por terra.
A História verdadeira mostra que
a reação do nativo foi tão marcante, que tornou-se uma ameaça perigosa para
certas capitânias como Espírito Santo e Maranhão. Além da luta armada, os
indígenas reagiram de outras maneiras, ocorrendo fugas, alcoolismo e homicídios
como forma de reação à violência estabelecida pelo escravismo colonial. Todas
essas formas de reação dificultavam a organização da economia colonial, podendo
assim, comprometer os interesses mercantilistas da metrópole, voltados para
acumulação de capital. Destaca-se também, a posição dos jesuítas, que voltados
para catequese do índio, opunham-se à sua escravidão.
Apesar de todos esses obstáculos,
o indígena é amplamente escravizado, permanecendo como mão-de-obra básica na
economia extrativista do Norte do Brasil, mesmo após o término do período
colonial.
Porque então que o índio cede
lugar para o negro como escravo no Brasil?
A maior utilização do negro como
mão-de-obra escrava básica na economia colonial, deve-se principalmente ao
tráfico negreiro, atividade altamente rentável, tornando-se uma das principais
fontes de acumulação de capitais para metrópole.
Exatamente o contrário ocorria
com a escravidão indígena, já que os lucros com o comércio dos nativos não
chegava até a metrópole.
Torna-se claro assim, o ponto de
vista defendido pelo historiador Fernando Novais, de que "o tráfico
explica a escravidão", e não o contrário.
Para os portugueses, o tráfico
negreiro não era novidade, pois desde meados do século XV , o comércio de
escravos era regular em Portugal, sendo que durante o reinado de D. João II o
tráfico negreiro foi institucionalizado com a ação direta do Estado português,
que cobrava taxas e limitava a participação de particulares.
Quanto a procedência étnica do
negro, destacaram-se dois grupos importantes: os bantos, capturados na África
equatorial e tropical provenientes do Congo, Guiné e Angola, além dos
sudaneses, vindos da África ocidental, Sudão e norte da Guiné.
Interessante observarmos que
entre os elementos deste segundo grupo, destacavam-se muitos negros
islamizados, responsáveis posteriormente por uma rebelião de escravos ocorrida
na Bahia em 1835, conhecida como a Revolta dos Malês.
A resistência do negro: os
quilombos.
Desde fugas isoladas, passando
pelo suicídio, pelo banzo (nostalgia que fazia o negro cair em profunda
depressão o levando à morte) e pelos quilombos, várias foram as formas de
resistência do negro à escravidão, sendo a formação dos quilombos a mais consequente.
Os quilombos eram aldeamentos de
negros que fugiam dos latifúndios, passando a vicer comunitariamente. O maior e
mais duradouro foi o quilombo dos Palmares, surgido em 1630 em Alagoas,
estendendo-se numa área de 27 mil quilômetros quadrados até Pernambuco.
Desenvolveu-se através do artesanato e do cultivo do milho, feijão, mandioca,
banana e cana-de-açúcar, além do comércio com aldeias vizinhas.
Seu primeiro líder foi Ganga
Zumba, substituído depois de morto por seu sobrinho Zumbi, que tornou-se a principal
liderança da história de Palmares. Zumbi foi covardemente assassinado em 1695
pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, contratado por latifundiários da região.
Apesar dos muitos negros mortos
em Palmaras, a quantidade de escravos crescia muito e em 1681 atingia a cifra
de 1 milhão de negros trazidos somente de Angola.
O grande número de negros
utilizado como escravos, deixa clara a alta lucratividade do tráfico negreiro,
responsável inicialmente pelo abastecimento da lavoura canavieira em expansão
nos séculos XVI e XVII e posteriormente nas áreas de mineração e da lavoura
cafeeira nos séculos XVIII e XIX respectivamente.
Fonte:
www.historianet.com.br
Referências bibliográficas:
ACDS – Associação Cultural e Desportiva Samburá
DIEESE - Reportagem da revista Com Ciência, editada pela
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC
Autoria: Marcos Júlio Lyra
Fonte: pt.wikipedia.org
BONS ESTUDOS E BOA PESQUISA!
Nenhum comentário:
Postar um comentário