terça-feira, outubro 30, 2012

A CRISE GREGA


Entenda a crise grega e suas consequências para a UE

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DE SÃO PAULO
Crise EconômicaA dimensão da crise grega e a a rápida deterioração da economia do país pode ser constatada por meio de apenas alguns números: somente nos últimos três anos, a taxa de desemprego saltou de 9,5% para 17,6%.
Hoje, economistas criticam a falta de competitividade internacional da economia grega e a excessiva dependência do setor bancário local da liquidez fornecida pelo BCE (Banco Central Europeu).
A crise de 2008 não ajudou a aliviar essas problemas, e a revelação, no final de 2009, de que o estado das contas públicas era muito pior do que o imaginado alijou o país do mercado financeiro.
Sem dinheiro e sem crédito na praça, a Grécia foi obrigada a recorrer à UE (União Europeia) e o FMI (Fundo Monetário Internacional), que impuseram uma 'receita amarga' bem conhecida pelos países latino-americanos na década de 80: cortes de gastos públicos e reformas econômicas.
Yannis Behrakis/Reuters
A população protestou com violência contra as medidas de austeridade impostas pela UE e FMI
A população protestou com violência contra as medidas de austeridade impostas pela UE e FMI
As medidas de austeridade adotadas pelo governo grego nos últimos anos, que incluíram demissões, aumento de impostos e redução de salários e pensões, revoltaram a população, que tomou as ruas em protestos violentos, em meio a um festival de greves gerais que pararam o país.
Hoje, o país se encaminha para o seu quinto ano consecutivo de recessão, com prognósticos de retomar o crescimento somente em 2014.
O FUTURO DA GRÉCIA E DA EUROPA
É incerto o que a UE pode fazer caso o novo governo que surja das urnas nesta semana force uma renegociação dos termos do plano de austeridade, tal como prega a Syriza, a legenda de esquerda radical bem colocada nas pesquisas.
A chanceler alemã, Angela Merkel, já demonstrou ao longo dos últimos dois anos bem pouca flexibilidade para relaxar as cobranças de austeridade fiscal dos demais países.
Ao mesmo tempo, as consequências de uma eventual saída do país mediterrâneo do bloco da moeda comum seriam tão drásticas, na visão de muitos economistas, que sugerem algum tipo de composição de ambas as partes.
"Não está claro que vem vai 'piscar' primeiro. Meu palpite é que, no final, haverá um pouco de piscadela de ambas as partes", disse o historiador econômico Niall Ferguson, numa entrevista nesta semana à TV Bloomberg.
Danilo Bandeira/Editoria de arte/Folhapress
PIOR CENÁRIO POSSÍVEL
Outro especialista bastante influente, Dani Rodrik, professor de economia política internacional da Universidade Harvard, publicou nesta semana um artigo apropriadamente intitulado: "O fim do mundo como o conhecemos".
Para Rodrik, a Espanha seria o alvo imediato dos mercados após a eventual saída da Grécia do euro. Apesar do apoio inicial do bloco europeu, o país ibérico "jogaria a toalha" e também sairia do bloco comum no curto prazo, afetando a Europa, e por consequência os EUA e a Ásia.
Para se defender contra a crise, prediz ele, os países retomariam práticas de protecionismo econômico, agravando os problemas da economia global.
"Poucos países são poupados ao morticínio económico. Aqueles que são partilham relativamente três características: níveis baixos da dívida pública, dependência limitada relativamente às exportações ou aos fluxos de capitais e instituições democráticas fortes", avalia Rodrik.
"Dessa forma, o Brasil e a Índia se tornam refúgios relativos, embora as suas perspectivas de crescimento sejam também severamente diminuídas", conclui.
+PELO MUNDO

pH em questão

27/05 - A Odisseia da Grécia em crise
A Grécia tem posição geopolítica estratégica na Europa

Há quem diga que o resultado não poderia ter sido outro. Colocar grandes potências econômicas, como Alemanha e França, ao lado de países marcados por fragilidades financeiras históricas, enlaçados por uma moeda única forte, em um grande bloco econômico como a União Europeia, não poderia dar certo por muito tempo...
Os países do Euro teriam muito interesse em evitar uma crise na Grécia. A razão óbvia é que isso, provavelmente, poderia contagiar os demais países da região, sobretudo os que têm economia frágil.

Quem olhou para o acordo de unidade da Europa com ceticismo não deve estar tão surpreso com as notícias que explodiram nas manchetes do mundo todo, anunciando o colapso da estabilidade econômica da Grécia. Mas para a população mundial ainda é difícil entender, realmente, as causas concretas que levaram os gregos ao caos. E as perguntas jorram na mesma proporção das notícias alarmantes: por que, afinal, a Grécia entrou em uma crise de tal proporção? O que a UE e os EUA podem fazer para ajudar o país a se reerguer? Qual a longevidade do euro e do bloco europeu? Que consequências a crise grega trará para o mundo? Em que medida os problemas na Europa podem respingar aqui no Brasil?

Para tentar elucidar essas dúvidas, o 
Diretor de Ensino do pH, Rui Alves Gomes de Sá, mergulhou no frágil cenário da economia grega e analisa causas e repercussões da crise.    

Após um período de otimismo no 2º semestre do ano passado, o início de 2010 foi marcado por uma maior inquietação, traduzida também em uma maior volatilidade nos preços de ativos. Esta inquietação teve como foco o agravamento de desequilíbrios fiscais em países europeus, como Espanha, Irlanda, Itália, Portugal e, principalmente, Grécia. A grande maioria dos países, na Europa e fora dela, mostrou deterioração de sua posição fiscal em 2009. Isto tanto por conta dos efeitos da recessão como pelo esforço de muitos governos para combater a desaceleração econômica com cortes de impostos e ampliação do gasto público.
Esta deterioração, contudo, teve implicações mais graves em países que, mesmo antes da crise, exibiam uma posição fiscal estruturalmente frágil. Esse era o caso da Grécia, que ao longo da última década exibiu déficits primários persistentes e vultosos, levando, mesmo em um contexto de juros baixos e crescimento econômico acelerado, à estabilização da dívida pública como proporção do PIB em níveis muito elevados, ao redor de 100%.


A Grécia é conhecida por sua beleza natural e sua cultura

A Grécia é localizada no sul dos Bálcãs, perto de países como Macedônia, Bulgária e Turquia, em um ponto de extrema importância geoestratégica em função da proximidade à Ásia e África. Possui relevo montanhoso e clima mediterrâneo. A população de aproximadamente 11 milhões de habitantes tem excelentes indicadores sociais, com um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,942 (2007). Normalmente, quando se fala em Grécia, lembra-se de Jogos Olímpicos, Filosofia, ilhas belíssimas e influente cultura. Porém, ultimamente, sites e jornais relacionam o país grego a uma severa crise econômica que pode se alastrar pelo continente europeu e pelo mundo.
Com a crise, o déficit público atingiu nada menos que 12,7% do PIB em 2009, mais de quatro vezes o limite de 3% estabelecido no Tratado de Maastricht (saiba mais). Mesmo sob as hipóteses mais otimistas, a dívida pública ultrapassará 120% do PIB em 2010. Outro agravante é o fato de terem sido descobertas recentemente evidências de que as contas públicas oficiais não refletiam adequadamente a posição fiscal do país. O governo anterior mascarou os números da situação fiscal, com o objetivo de ocultar o déficit, o que gerou um enorme problema de credibilidade, que dificulta, ainda mais, o encaminhamento de uma solução para a crise atual. 
Dessa forma, tem-se um caso clássico de crescimento insustentável de dívida pública, que coloca a Grécia diante da necessidade de promover um ajuste doloroso. O governo anunciou um programa ambicioso, que prevê a redução do déficit de 12,7% para 2,8% do PIB em 2012, com base em aumento de impostos, redução de gastos com folha de pagamentos e reforma da previdência.  Embora o anúncio siga na direção correta, as dúvidas em relação à sua implementação são naturais, dadas as dificuldades políticas inerentes a ajustes tão dramáticos. A greve geral ocorrida no final de fevereiro em protesto ao ajuste, com ampla adesão dos setores público e privado, é uma boa ilustração de tais dificuldades. Além disto, a falta de credibilidade também torna mais difícil a resolução do déficit fiscal. Mesmo que o país tenha intenção e capacidade de implementar o ajuste prometido, seus resultados demorarão a se tornar palpáveis, e o ceticismo do mercado pode fazer com que os gastos com juros da dívida se elevem, anulando uma parte do eventual esforço de melhora do resultado primário.


Protestos e greves explodiram nas principais cidades gregas, como Atenas (foto)

Os países do Euro teriam muito interesse em evitar uma crise na Grécia. A razão óbvia é que isso, provavelmente, geraria algum grau de contágio nos demais países da região, principalmente nos que também apresentam fragilidade fiscal, mesmo que em intensidade inferior à da Grécia. Tal contágio se daria pelo elevado grau de integração, no que tange aos fluxos de comércio e de capital, que une os países da região.  Neste sentido, é possível pensar em um programa em que o custo incorrido pelos demais países da região seja inferior às possíveis externalidades que eles sofreriam com o agravamento da crise grega. Ainda assim, há enormes dificuldades envolvidas em um acordo desta natureza. Qualquer tipo de ajuda somente teria eficácia se viesse acompanhada de condições suficientemente  críveis para assegurar que o ajuste fiscal seria, de fato, implementado. Além disto, seria interessante para os demais países europeus evitar a geração de incentivos perversos para a condução da política fiscal nos países da região. Em outras palavras, seria de se esperar que houvesse um esforço para demonstrar que a irresponsabilidade fiscal é um mau negócio. Caso contrário, a ajuda à Grécia poderia incentivar novas e mais amplas crises no futuro.
 
A crise grega pode se irradiar por toda a Europa

A CRISE NO BLOCO EUROPEU
Há temores de que um agravamento da crise leve a um eventual calote da dívida grega e que países como Portugal, Itália, Espanha e Irlanda acabem entrando pelo mesmo caminho. Investidores observam com preocupação os cenários previstos por especialistas, como o de vários países sendo forçados a cortar drasticamente os seus gastos públicos e elevando taxas de juros para poder pagar suas dívidas, ou, pior, o de países deixando a chamada zona do euro e provocando uma dissolução da União Europeia. Por outro lado, as perdas dos bancos que emprestaram dinheiro a esses países podem levar a uma nova crise de crédito.
É importante enfatizar que as dificuldades ora enfrentadas pela Europa não invalidam um cenário ainda construtivo para a economia mundial. Por enquanto, temos um grau maior de incerteza.
Todos esses temores se intensificaram no dia 23 de abril, quando a Grécia pediu, formalmente, ajuda financeira à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional para tirar o país de sua crise de débito. O país está pedindo até 45 bilhões de euros em empréstimos de emergência aos países da zona do euro e ao FMI neste ano, mas existe a preocupação de o acordo não ser fechado ou, ainda, não ser suficiente.
 No início de maio, os líderes dos países da zona do euro tinham concordado com um pacote de emergência de 30 bilhões de euros para a Grécia. Mas até que ponto essa ajuda pode resolver a crise?
Sim, até há um risco de extinção do euro, que considero muito pequeno. O mais provável é sua depreciação perante outras moedas. Nessa segunda hipótese, há uma questão vantajosa para o bloco europeu no sentido da exportação. A moeda deles estando mais depreciada irá favorecê-los como players internacionais mais fortes para a colocação de seus produtos no mercado. Isso, no meu entender, assemelha-se ao que está acontecendo também com EUA e Japão, países que deverão continuar um processo de depreciação de suas moedas para fortalecer suas posições exportadoras. Eles perderam capacidade competitiva no mercado internacional, fundamentalmente, pelo diferencial salarial que praticam em relação aos países emergentes, especialmente os do leste da Ásia. Assim, eles só poderão competir com maior vigor no comércio internacional com a depreciação de suas moedas. A meu ver, esse é um caminho quase inexorável e que será acelerado em decorrência dos trilhões de dólares emitidos para salvar seus sistemas financeiros.

                                  
O aumento no desemprego na Espanha já é preocupante                 Portugal também está em crise


No todo, nossa visão é de que o encaminhamento de uma solução para os problemas gregos envolverá negociações difíceis, que devem se arrastar por algum tempo. Seja qual for o desfecho, acreditamos que esta crise terá impactos negativos sobre a recuperação da Europa, embora sua intensidade ainda seja muito incerta.
É importante enfatizar que as dificuldades ora enfrentadas pela Europa não invalidam um cenário ainda construtivo para a economia mundial. Por enquanto, o que se pode dizer é que, embora o quadro mais provável da economia mundial ainda seja moderadamente positivo, temos um grau maior de incerteza.  Sobretudo em crises deste tipo, há sempre uma interação maior entre questões econômicas e políticas.

Ressalto algumas lições importantes que a crise grega nos traz. Não há nada de errado em utilizar a política fiscal para tentar reduzir a amplitude do ciclo econômico, mas o espaço para a implementação de estratégias deste tipo depende crucialmente das condições iniciais. Países com baixos níveis de endividamento público e com resultados primários estruturalmente saudáveis certamente terão maior capacidade de, em períodos recessivos, utilizar a política fiscal para ativamente estimular a economia. Além disso, a crise grega nos relembra da importância da transparência fiscal: expurgos de determinados tipos de gastos e mudanças na definição da meta fiscal reduzem a capacidade dos analistas de, a partir dos dados de contas públicas, avaliarem as condições de solvência do Governo. Este tipo de opacidade pode ter impactos tão danosos quanto a piora da posição fiscal em longo prazo.


 
A instabilidade na Grécia pode comprometer a força da União Europeia e até a existência do Euro

ESPANHA
Apesar de ter uma economia mais forte do que a da Grécia e de Portugal, a Espanha tem um problema de endividamento privado, principalmente de mutuários de empréstimos habitacionais que se viram em apuros quando a bolha imobiliária do país estourou. Os grandes bancos espanhóis são sólidos, mas há problemas nas cajas de ahorro, instituições de pequeno porte com foco em poupança e hipotecas e que sofreram um forte aumento da inadimplência. A recessão no país é profunda: a taxa de desemprego chegou a 20%; sua dívida pública, em proporção do PIB, é metade da grega (53,2%). Porém, como se trata de uma economia muito maior, em volume, o endividamento espanhol (um trilhão de euros) faria um estrago enorme em caso de insolvência e é isso que preocupa os investidores. 
PORTUGAL
O país sofre com baixo crescimento há mais tempo e, além de uma complicada situação fiscal – a dívida pública, em 2009, era de 76,8% do PIB – , tem uma elevada dívida privada externa. Em fevereiro de 2010, a taxa de desemprego atingiu 10,3%.
A REPERCUSSÃO NO BRASIL

A aversão de investidores estrangeiros ao risco (compra de ativos de emergentes, por exemplo) pode dificultar a emissão de papéis (captação de recursos) de empresas brasileiras, tanto internamente como no exterior. Pode ainda acelerar a saída de dólares do país, o que tende a desvalorizar o real e, caso o movimento seja acentuado, encarecer produtos estrangeiros no país e pressionar os preços. Assim, esse parece o impacto mais provável dessa crise no Brasil, mas sem a queda abrupta de atividade sofrida há um ano e meio. 
 
A Grécia entrou em crise e pode arrastar a Europa

Resumindo os itens abordados: 

Por que a Grécia está nessa situação?
A Grécia gastou bem mais do que podia na última década, pedindo empréstimos pesados e deixando sua economia refém da crescente dívida. Nesse período, os gastos públicos foram às alturas e os salários do funcionalismo praticamente dobraram. Enquanto os cofres públicos eram esvaziados pelos gastos, a receita era atingida pela alta evasão de impostos, prática generalizada no país.
Todo mundo na zona do euro – e qualquer um que negocie com esses países – é afetado por causa do impacto da crise grega sobre a moeda comum europeia.
Além disso, Grécia estava completamente despreparada quando chegou à crise global de crédito. O déficit no orçamento, ou seja, a diferença entre o que o país gasta e o que arrecada, foi, em 2009, de 13,6% do PIB, um dos índices mais altos da Europa e quatro vezes acima do tamanho permitido pelas regras da chamada zona do euro.
Sua dívida está, atualmente, em torno de 300 bilhões de euros (o equivalente a US$ 400 bilhões ou R$ 700 bilhões), o que deixou investidores relutantes em emprestar mais dinheiro ao país. Hoje, eles exigem juros bem mais altos para novos empréstimos. Essa situação é particularmente preocupante, porque a Grécia depende de novos empréstimos para refinanciar mais de 50 bilhões de euros em dívidas neste ano.
Por que a situação causa tanta preocupação fora da Grécia? 
Todo mundo na zona do euro – e qualquer um que negocie com esses países – é afetado por causa do impacto da crise grega sobre a moeda comum europeia. Teme-se que os problemas da Grécia nos mercados financeiros internacionais provoquem um efeito dominó, derrubando outros membros da zona do euro cujas economias estão enfraquecidas, como Portugal, Irlanda, Itália e Espanha. Todos eles enfrentam desafios para reequilibrar suas contas.
 Em março passado, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a classificação de Portugal de AA para AA-. Questões sobre o alto nível das dívidas na Europa foram levantadas em vários países.
O que a Grécia está fazendo quanto a isso?
 A Grécia apresentou planos para cortar seu déficit para 8,7% em 2010, e para menos de 3% até 2012. Para alcançar isso, o Parlamento grego aprovou um pacote de medidas de austeridade para economizar 4,8 bilhões de euros. Na prática, o governo quer congelar os salários do setor público e aumentar os impostos, e ainda anunciou o aumento do preço da gasolina. Além disso, pretende aumentar a idade mínima para a aposentadoria, em uma tentativa de economizar dinheiro no sistema de pensões, já sobrecarregado.
Como essas medidas foram recebidas na Grécia?
 De maneira nem um pouco positiva. Houve uma série de protestos no país, alguns violentos. As greves atingiram escolas e hospitais, além de praticamente paralisarem o transporte público. Muitos servidores públicos acreditam que a crise foi criada por forças externas, como especuladores internacionais e banqueiros da Europa central. Os dois maiores sindicatos do país classificaram as medidas de austeridade como “antipopulares” e “bárbaras”.
O que acontece agora?
 A Grécia precisa de 10 bilhões de euros até o mês que vem para cumprir suas obrigações financeiras. Com o pacote da UE e do FMI, o país deve conseguir levantar essa soma, mas as condições exatas destes empréstimos ainda não foram acordadas. Se os detalhes foram definidos rapidamente e sem grandes problemas, o país conseguirá pagar sua dívida mais facilmente.
Em teoria, isso deveria proporcionar uma queda nos custos de empréstimo do governo e o euro deveria voltar a se fortalecer, depois de ter sofrido queda nas últimas semanas por causa do medo de a Grécia não conseguir pagar suas dívidas. 
 A Grécia poderia simplesmente abandonar o euro?
 Operadores de câmbio já demonstraram medo de que alguns países com grandes déficits no orçamento – como a Grécia, Espanha e Portugal – possam se sentir tentados a abandonar o euro. Ao deixar a moeda comum, o país poderia permitir a desvalorização de sua moeda e, assim, melhorar sua competitividade. Mas isso também causaria grandes rupturas nos mercados financeiros, provocando o medo de que outros países adotassem a mesma estratégia, e que houvesse o fim da união monetária. Por outro lado, a União Européia já demonstrou que quer manter a zona do euro unida e descartou a ideia de que países abandonem a moeda. 

Como a situação da Grécia se compara a de outros países?

 A Grécia não é o único país da zona do euro a violar a regra que afirma que o déficit orçamentário não deve ultrapassar 3% do PIB do país. Na Grã-Bretanha, que não está na zona do euro, esse déficit chega a 13% do PIB. Na Espanha, ele chega a 11,2%, na Irlanda a 14,3% e na Itália a 5,3%.

Rui Alves Gomes de Sá é engenheiro e Diretor de Ensino do Grupo pH 


Crise faz gregos criarem sociedades alternativas do século 21

Atualizado em  21 de agosto, 2012 - 05:08 (Brasília) 08:08 GMT
Comunidade Free and Real, na Grécia
A comunidade Free and Real foi fundada há 2 anos por 4 jovens de Atenas (www.freeandreal.org)
Sem perspectivas, em um país afundado na pior crise de sua história recente, jovens da Grécia estão recomeçando as vidas em sociedades alternativas baseadas em princípios radicais de sustentabilidade.
A comunidade Free and Real (Livre e Real, em tradução literal), a sigla em inglês para Freedom of Resources for Everyone, Respect, Equality, Awareness and Learning (Liberdade de Recursos para Todos, Respeito, Igualdade e Aprendizado - também em tradução literal), foi fundada há dois anos no sopé do monte Telaithrion, na paradisíaca ilha de Evia, por quatro jovens de Atenas.
Hoje, ela conta com dez moradores em tempo integral e mais de cem que passam parte do ano no local.
Um dos fundadores do movimento, o webdesigner Apostolos Sianos, afirma que abriu mão do emprego e de comodidades da sociedade moderna.
Os moradores da sociedade alternativa não têm acesso à rede grega de eletricidade, moram em cabanas comunitárias que eles mesmos construíram e comem a comida que produzem no local.
O excedente da produção é trocado no vilarejo mais próximo por produtos de que necessitem.
"O que outros viram como a crise econômica global, vimos como crise de civilização", afirmou Sianos.

'Tudo em crise'

Para ele, tudo parecia em crise: o sistema de saúde, o meio ambiente, a educação.
A semente da ideia foi lançada em um fórum da internet em 2008, mas cresceu até sair do mundo virtual para o real.
"Quando tomei a decisão de abandonar a cidade e morar neste pedaço de terra, fiquei um pouco nervoso. Mas agora não consigo me imaginar naquele estilo de vida outra vez."
Comunidade Free and Real, na Grécia
Moradores vivem em cabanas comunitárias que eles mesmos construíram (www.freeandreal.org)
Nos últimos meses, com o agravamento da crise grega, o estilo de vida alternativa proposto por Sianos vem atraindo cada vez mais interessados.
O esvaziamento das cidades, em um êxodo rumo ao campo, vem sendo registrado em várias regiões. Muitos agora procuram o Free and Real para se aconselhar sobre técnicas de vida sustentáveis e de agricultura orgânica.
"A crise financeira grega está dando uma enorme oportunidade às pessoas para verem que o sistema em que vivem não está funcionando, então podem começar a procurar alternativas", afirmou Sianos.
Andonis Karantinakis é uma dessas pessoas. Morador da quarta maior cidade da Grécia, Heraklion, ele se considera uma "trabalhador inseguro".
Desde que se formou em turismo, trabalhou em bares, restaurantes, lojas, segurança de aeroporto e até como ajudante arqueológico. Sempre temporariamente e nunca com garantias formais.
Em 2010, Sklavenitis e outros amigos desempregados formaram a primeira Associação dos Desempregados, com o objetivo de lutar por melhores condições de emprego e apoio psicológico àqueles que sofrem com o desemprego.

Desemprego

Atualmente, a Grécia paga seguro desemprego de 350 euros (por volta de R$ 870) por mês, durante 12 meses, para quem está com as contribuições em dia.
Comunidade Free and Real, na Grécia
Hoje, há dez moradores em tempo integral e mais de cem que passam parte do ano no local (www.freeandreal.org)
Com passeatas e protestos, a associação exige transporte gratuito para desempregados e descontos nas contas de luz e telefone.
O grupo também distribui cestas básicas para famílias em dificuldades.
O diretor da associação, Nikos Karantinakis, é um dos que necessita do auxílio - já que o pouco que produzem no jardim não é suficiente para alimentar a família inteira - pai, mãe e noiva.
Desde a fundação da primeira associação de desempregados, na ilha de Creta, iniciativas semelhantes surgiram em todo o país, nas metrópoles gregas Atenas, Tessalônica e Patras.
"Se o governo não nos ajuda, temos que lutar", afirma Karantinakis.

A crise na Grécia e o fim do euro

Por Milena Lumini
Infografia: Joice Balboa

Nas últimas semanas, o noticiário internacional vem sendo permeado de informações sobre a crise econômica na Grécia. No dia 7 desse mês foi aprovado um pacote de 110 bilhões de euros, uma ajuda conjunta do FMI e de 16 países da União Européia, para recuperar a economia do país e evitar que a crise chegue nos países vizinhos. Enquanto isso, entretanto, alguns estudiosos veem a crise como um prelúdio do fim do euro, como o prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz.

Mas será que essa crise significa mesmo o fim da primeira união monetária do mundo? As dificuldades em solucionar a crise são um alerta não só em relação ao futuro do Euro mas, também, a outros blocos econômicos que cogitam a adoção de uma moeda única, como o Mercosul.

O problema

Desde 2007, a Grécia apresenta um descontrole nos gastos públicos, que gerou um déficit. Para cobri-lo, fez empréstimos com bancos alemães e franceses. O problema, porém, chegou ao extremo nesse ano, quando o país contabilizou uma dívida pública de 110% do seu PIB, equivalente a cerca de 270 bilhões de euros. Também apresentou um déficit público de 12% do PIB, quando o Pacto de Estabilidade e Crescimento da Zona do Euro delimita um máximo de 3% do PIB.

Com uma dívida nessas proporções os investidores deixam de investir na Grécia, pois o país não honra mais os seus títulos, ou seja, não apresenta condições de melhoras financeiras que sirvam de garantia aos investidores. Além de não ter condições de realizar mais empréstimos e de ter os investidores afastados, a Grécia não pode contar com a solução mais fácil em tempos de crise: o aumento de crédito.

A Grécia, assim como outros países em desenvolvimento, costuma resolver suas crises financeiras através da inflação: o governo imprime dinheiro para poder pagar parte de sua dívida. No entanto, em uma união monetária como o euro, essa possibilidade já não existe, pois quem imprime a moeda é o Banco Central Europeu e os países membros recebem um volume de moeda fixo, sem possibilidades de aumentá-lo. Também não podem alterar a taxa de juros, pois isso poderia afetar a economia dos outros países da união. 
Qual a solução?


Segundo o professor de Economia e Relações Internacionais da UFSC, Fernando Seabra, o pacote de ajuda econômica à Grécia é um socorro de curto prazo: serve para resolver o problema de credibilidade do país e não afastar os investidores. No entanto, a solução efetiva é o controle fiscal. O país precisa resolver seus problemas de base, em especial, o controle dos gastos públicos. A consequência disso pode ser social, já que o Estado deixaria de investir em obras sociais, além de aumentar os impostos, cortar salários e aposentadorias.

O fim do euro?

Seabra não acredita que a união monetária se dissolva por conta dessa crise, “O que pode acontecer é a Grécia deixar a União Européia”, diz. A consequência disso seria o enfraquecimento da Zona do Euro (Clique na figura ao lado), com um país a menos no grupo. A saída da Grécia também serviria de sinalização  para os outros países que estão no cronograma de adesão ao euro, como Eslováquia, Hungria e Polônia.
Para a Grécia, assim como a outros países de economia menores como Portugal e Espanha, participar da união monetária foi uma grande vantagem por controlar a inflação, que costumava ser acima da média dos outros países da Europa. Já para os países mais estáveis, como Alemanha e França, a vantagem de uma moeda única é a estabilidade cambial: não depender da cotação de outra moeda para realizar comércio e não perder dinheiro com os custos de transação.

Um alerta para os blocos econômicos
A crise financeira na Grécia deixa uma lição para outros blocos econômicos, como o Mercosul: adotar a moeda única significa dar um adeus à política monetária individual de aumento de juros e inflação. Para Fernando Seabra, a política fiscal dos países da união monetária, bem como a tributação, devem ser harmoniosas e similares, “Não dá para ter um país com uma política fiscal rígida como a Alemanha e outro com uma política fiscal mais flexível, como a da Grécia”, explica o professor.

O euro uniu países que já tinham uma similaridade econômica. Os países que aderirem a uma união monetária precisam saber se têm, realmente, a intenção de se relacionarem a esse nível – o mais avançado na integração econômica.

Por que o mundo teme a saída da Grécia do euro

Mais instabilidade nos mercados, prejuízos com títulos, dólar em alta e temor de contaminação generalizada estão nas previsões de economistas

Naiara Infante Bertão
Crise da economia e finanças da Grécia
Tensão nos mercados é reflexo do temor de que o país deixe a zona do euro ( Louisa Gouliamaki/AFP)
A decisão que pode ser tomada até o fim de junho implicará não apenas o fim da ajuda financeira da União Europeia (UE), mas terá efeitos catastróficos sobre a zona do euro 
Muita incerteza e tensão. Esse será o cenário que o mundo viverá se a Grécia deixar a zona do euro, alertam economistas ouvidos pelo site de VEJA. Nesta quarta-feira, agências de notícias internacionais apontaram que os líderes do Eurogrupo concordaram num pacto para que cada nação da união monetária prepare um plano de contingência ante a saída iminente dos gregos do bloco. A informação foi negada por Atenas, mas, de qualquer forma, dá o tom de nervosismo que toma conta das finanças internacionais.
A possível derrocada da Grécia seria reflexo, dizem os especialistas, de uma eventual falha em resolver no curto prazo o impasse político que se instalou em Atenas. O cenário não é nada improvável tendo em vista o crescimento nas pesquisas para o pleito de 17 de junho de líderes de esquerda, que são contrários ao rigor das medidas de austeridade fiscal impostas por outras economias da eurozona, sobretudo a Alemanha. A questão preocupante não é apenas se a Grécia terá condições de pagar ou não suas dívidas.
A decisão que pode ser tomada até o fim de junho – a depender do resultado das eleições – implicará não apenas o fim da ajuda financeira da União Europeia (UE), mas, sobretudo, terá efeitos catastróficos sobre a zona do euro (veja quadro). Terá o poder ainda de ditar o humor dos mercados internacionais e definir se o mundo caminha novamente para uma segunda grande recessão, após a crise que se sucedeu ao estouro da bolha imobiliária americana em 2008.
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Fora do euro, caos grego pioraria ainda mais

O economista-chefe da Gradual Corretora, André Perfeito, não acredita que a Grécia deixará o bloco justamente porque as consequências para a Europa (e o mundo) seriam tão calamitosas que as autoridades tentarão impedir que isso aconteça. Ele elenca, primeiramente, a piora da situação, já caótica, da economia grega. “Ela tem uma balança comercial tão cronicamente deficitária, exporta poucos produtos, não pode fabricar itens básicos e importa grande parte de seus insumos, que a ressureição do dracma [antiga moeda grega] não ajudaria muito”, afirma.
 
Além disso, a Grécia seria deixada de fora do bloco comercial único europeu, o que agravaria ainda mais sua recessão. Os preços aumentariam fortemente e o rendimento real da população cairia de forma abrupta.
 
A credibilidade do próprio dracma – que renasceria em um abiente de inflação elevada e problemas crônicos na economia – pode ser posta em xeque. “Poderia haver uma corrida aos bancos, com saques massivos, o que desestabilizaria ainda mais o sistema financeiro”, projeta Perfeito. Na semana passada, apenas com os temores de saída da zona do euro, os gregos já sacaram muito mais do que de costume de suas contas bancárias.
Desde 6 de maio, os partidos contrários ao expressivo corte de gastos públicos no país conquistaram mais lugares no Parlamento. As urnas escancararam o descontentamento da população grega – que sofre com anos seguidos de caos econômico – com a política vigente. Seis anos atrás, a Grécia já mostrava uma dívida acima do seu Produto Interno Bruto (PIB), da ordem de 106,1%.
Com o passar do tempo e as complicações políticas iniciadas com a crise de 2008, o déficit público piorou até atingir 165,3% no fim de 2011. A dívida pública grega ultrapassa hoje 350 bilhões de euros.
Para socorrer o país problemático, o trio formado pelo Banco Central Europeu (BCE), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia (UE) – chamado de “troika” – costurou vários empréstimos.  Em março, a UE aprovou a liberação da primeira parcela do segundo pacote de resgate da Grécia, de 130 bilhões de euros, para que Atenas reduza seu déficit para 117% até 2014.
Em troca, foram impostas condições, entre elas corte de gastos do governo e reformas estruturais. O rigor das medidas teve forte efeito deletério sobre uma economia já combalida. O resultado foi uma taxa de desemprego de 20,7% e uma queda de 6,2% do PIB no primeiro trimestre. Cabe lembrar que, no ano anterior, a "troika" já havia liberado 110 bilhões de euros.
Agravando ainda mais a já difícil situação, os partidos políticos gregos não chegaram a um acordo sobre planos para a economia e o mundo reage negativamente ao temor de calote.Dezessete de  junho será o último capítulo da novela que revelará o destino da Grécia, da zona do euro e do mercado mundial. 
Divisor de águas – Segundo o analista político da Tendências Consultoria, Rafael Cortez,  as pesquisas gregas apontam que o partido de extrema esquerda Syriza é o favorito para ganhar as eleições, depois de ter ficado em segundo lugar no pleito passado. A vitória do Syriza, que é comandado pelo socialista Alexis Tsipras, implicaria o agravamento deste cenário.
A razão é simples: o partido é contra as medidas de austeridade fiscal. “Na Grécia, o partido que ganha mais cadeiras tenta formar um governo de maioria; se não conseguir, o segundo mais votado recebe a missão e assim por diante”, explica Cortez. Ele diz que o boicote da dívida não significa necessariamente o adeus da Grécia ao bloco, uma vez que a UE pode tentar comprar a dívida grega, assim como os Estados Unidos fez, em 2008, com seu próprio sistema financeiro.
“Se a Grécia não acordar com as medidas europeias, o calote é o mais provável dos cenários”, diz o professor de economia internacional da Universidade de São Paulo (USP), Simão Davi Silber, que chama a Grécia atual de “mula sem cabeça” por suas dificuldades em ter uma liderança firme. Para ele, o calote poderia levar a Grécia a sair da zona do euro, uma vez queas próprias autoridades europeias alertam que ela precisará seguir conforme os planos iniciais para ficar no bloco.
A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, reconheceu na semana passada que a saída da a Grécia da zona do euro é uma possibilidade arriscada. “Seria uma situação extremamente custosa e com grandes riscos, mas que somos obrigados a analisar de um ponto de vista técnico".
Na última sexta-feira, o comissário europeu de Comércio, Karel De Gucht, em entrevista publicada no jornal belga De Standaarddisse que a própria Comissão Europeia e o BCE já simulam o que aconteceria se a Grécia deixasse o euro. Hoje, um grupo de trabalho do Eurogrupo sugeriu que cada país formatasse um plano de contingência para se precaver das conseqüências deste fato.
O que vai acontecer ninguém sabe, mas se a Grécia sair – ou “for saída” – da eurozona o cenário seguinte seria resumido por uma palavra: caos.





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