Entenda a crise grega e suas consequências para a UE
PUBLICIDADE
DE SÃO PAULO
Hoje, economistas criticam a falta de competitividade internacional da economia grega e a excessiva dependência do setor bancário local da liquidez fornecida pelo BCE (Banco Central Europeu).
A crise de 2008 não ajudou a aliviar essas problemas, e a revelação, no final de 2009, de que o estado das contas públicas era muito pior do que o imaginado alijou o país do mercado financeiro.
Sem dinheiro e sem crédito na praça, a Grécia foi obrigada a recorrer à UE (União Europeia) e o FMI (Fundo Monetário Internacional), que impuseram uma 'receita amarga' bem conhecida pelos países latino-americanos na década de 80: cortes de gastos públicos e reformas econômicas.
| Yannis Behrakis/Reuters | ||
| A população protestou com violência contra as medidas de austeridade impostas pela UE e FMI |
As medidas de austeridade adotadas pelo governo grego nos últimos anos, que incluíram demissões, aumento de impostos e redução de salários e pensões, revoltaram a população, que tomou as ruas em protestos violentos, em meio a um festival de greves gerais que pararam o país.
Hoje, o país se encaminha para o seu quinto ano consecutivo de recessão, com prognósticos de retomar o crescimento somente em 2014.
O FUTURO DA GRÉCIA E DA EUROPA
É incerto o que a UE pode fazer caso o novo governo que surja das urnas nesta semana force uma renegociação dos termos do plano de austeridade, tal como prega a Syriza, a legenda de esquerda radical bem colocada nas pesquisas.
A chanceler alemã, Angela Merkel, já demonstrou ao longo dos últimos dois anos bem pouca flexibilidade para relaxar as cobranças de austeridade fiscal dos demais países.
Ao mesmo tempo, as consequências de uma eventual saída do país mediterrâneo do bloco da moeda comum seriam tão drásticas, na visão de muitos economistas, que sugerem algum tipo de composição de ambas as partes.
"Não está claro que vem vai 'piscar' primeiro. Meu palpite é que, no final, haverá um pouco de piscadela de ambas as partes", disse o historiador econômico Niall Ferguson, numa entrevista nesta semana à TV Bloomberg.
| Danilo Bandeira/Editoria de arte/Folhapress | ||
PIOR CENÁRIO POSSÍVEL
Outro especialista bastante influente, Dani Rodrik, professor de economia política internacional da Universidade Harvard, publicou nesta semana um artigo apropriadamente intitulado: "O fim do mundo como o conhecemos".
Para Rodrik, a Espanha seria o alvo imediato dos mercados após a eventual saída da Grécia do euro. Apesar do apoio inicial do bloco europeu, o país ibérico "jogaria a toalha" e também sairia do bloco comum no curto prazo, afetando a Europa, e por consequência os EUA e a Ásia.
Para se defender contra a crise, prediz ele, os países retomariam práticas de protecionismo econômico, agravando os problemas da economia global.
"Poucos países são poupados ao morticínio económico. Aqueles que são partilham relativamente três características: níveis baixos da dívida pública, dependência limitada relativamente às exportações ou aos fluxos de capitais e instituições democráticas fortes", avalia Rodrik.
"Dessa forma, o Brasil e a Índia se tornam refúgios relativos, embora as suas perspectivas de crescimento sejam também severamente diminuídas", conclui.
+PELO MUNDO
pH em questão
27/05 - A Odisseia da Grécia em crise
A Grécia tem posição geopolítica estratégica na Europa
Há quem diga que o resultado não poderia ter sido outro. Colocar grandes potências econômicas, como Alemanha e França, ao lado de países marcados por fragilidades financeiras históricas, enlaçados por uma moeda única forte, em um grande bloco econômico como a União Europeia, não poderia dar certo por muito tempo...
Os países do Euro teriam muito interesse em evitar uma crise na Grécia. A razão óbvia é que isso, provavelmente, poderia contagiar os demais países da região, sobretudo os que têm economia frágil.
Quem olhou para o acordo de unidade da Europa com ceticismo não deve estar tão surpreso com as notícias que explodiram nas manchetes do mundo todo, anunciando o colapso da estabilidade econômica da Grécia. Mas para a população mundial ainda é difícil entender, realmente, as causas concretas que levaram os gregos ao caos. E as perguntas jorram na mesma proporção das notícias alarmantes: por que, afinal, a Grécia entrou em uma crise de tal proporção? O que a UE e os EUA podem fazer para ajudar o país a se reerguer? Qual a longevidade do euro e do bloco europeu? Que consequências a crise grega trará para o mundo? Em que medida os problemas na Europa podem respingar aqui no Brasil?
Para tentar elucidar essas dúvidas, o Diretor de Ensino do pH, Rui Alves Gomes de Sá, mergulhou no frágil cenário da economia grega e analisa causas e repercussões da crise.
Após um período de otimismo no 2º semestre do ano passado, o início de 2010 foi marcado por uma maior inquietação, traduzida também em uma maior volatilidade nos preços de ativos. Esta inquietação teve como foco o agravamento de desequilíbrios fiscais em países europeus, como Espanha, Irlanda, Itália, Portugal e, principalmente, Grécia. A grande maioria dos países, na Europa e fora dela, mostrou deterioração de sua posição fiscal em 2009. Isto tanto por conta dos efeitos da recessão como pelo esforço de muitos governos para combater a desaceleração econômica com cortes de impostos e ampliação do gasto público.
Esta deterioração, contudo, teve implicações mais graves em países que, mesmo antes da crise, exibiam uma posição fiscal estruturalmente frágil. Esse era o caso da Grécia, que ao longo da última década exibiu déficits primários persistentes e vultosos, levando, mesmo em um contexto de juros baixos e crescimento econômico acelerado, à estabilização da dívida pública como proporção do PIB em níveis muito elevados, ao redor de 100%.
A Grécia é conhecida por sua beleza natural e sua cultura
A Grécia é localizada no sul dos Bálcãs, perto de países como Macedônia, Bulgária e Turquia, em um ponto de extrema importância geoestratégica em função da proximidade à Ásia e África. Possui relevo montanhoso e clima mediterrâneo. A população de aproximadamente 11 milhões de habitantes tem excelentes indicadores sociais, com um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,942 (2007). Normalmente, quando se fala em Grécia, lembra-se de Jogos Olímpicos, Filosofia, ilhas belíssimas e influente cultura. Porém, ultimamente, sites e jornais relacionam o país grego a uma severa crise econômica que pode se alastrar pelo continente europeu e pelo mundo.
Com a crise, o déficit público atingiu nada menos que 12,7% do PIB em 2009, mais de quatro vezes o limite de 3% estabelecido no Tratado de Maastricht (saiba mais). Mesmo sob as hipóteses mais otimistas, a dívida pública ultrapassará 120% do PIB em 2010. Outro agravante é o fato de terem sido descobertas recentemente evidências de que as contas públicas oficiais não refletiam adequadamente a posição fiscal do país. O governo anterior mascarou os números da situação fiscal, com o objetivo de ocultar o déficit, o que gerou um enorme problema de credibilidade, que dificulta, ainda mais, o encaminhamento de uma solução para a crise atual.
Dessa forma, tem-se um caso clássico de crescimento insustentável de dívida pública, que coloca a Grécia diante da necessidade de promover um ajuste doloroso. O governo anunciou um programa ambicioso, que prevê a redução do déficit de 12,7% para 2,8% do PIB em 2012, com base em aumento de impostos, redução de gastos com folha de pagamentos e reforma da previdência. Embora o anúncio siga na direção correta, as dúvidas em relação à sua implementação são naturais, dadas as dificuldades políticas inerentes a ajustes tão dramáticos. A greve geral ocorrida no final de fevereiro em protesto ao ajuste, com ampla adesão dos setores público e privado, é uma boa ilustração de tais dificuldades. Além disto, a falta de credibilidade também torna mais difícil a resolução do déficit fiscal. Mesmo que o país tenha intenção e capacidade de implementar o ajuste prometido, seus resultados demorarão a se tornar palpáveis, e o ceticismo do mercado pode fazer com que os gastos com juros da dívida se elevem, anulando uma parte do eventual esforço de melhora do resultado primário.

Protestos e greves explodiram nas principais cidades gregas, como Atenas (foto)
Os países do Euro teriam muito interesse em evitar uma crise na Grécia. A razão óbvia é que isso, provavelmente, geraria algum grau de contágio nos demais países da região, principalmente nos que também apresentam fragilidade fiscal, mesmo que em intensidade inferior à da Grécia. Tal contágio se daria pelo elevado grau de integração, no que tange aos fluxos de comércio e de capital, que une os países da região. Neste sentido, é possível pensar em um programa em que o custo incorrido pelos demais países da região seja inferior às possíveis externalidades que eles sofreriam com o agravamento da crise grega. Ainda assim, há enormes dificuldades envolvidas em um acordo desta natureza. Qualquer tipo de ajuda somente teria eficácia se viesse acompanhada de condições suficientemente críveis para assegurar que o ajuste fiscal seria, de fato, implementado. Além disto, seria interessante para os demais países europeus evitar a geração de incentivos perversos para a condução da política fiscal nos países da região. Em outras palavras, seria de se esperar que houvesse um esforço para demonstrar que a irresponsabilidade fiscal é um mau negócio. Caso contrário, a ajuda à Grécia poderia incentivar novas e mais amplas crises no futuro.
Protestos e greves explodiram nas principais cidades gregas, como Atenas (foto)
Os países do Euro teriam muito interesse em evitar uma crise na Grécia. A razão óbvia é que isso, provavelmente, geraria algum grau de contágio nos demais países da região, principalmente nos que também apresentam fragilidade fiscal, mesmo que em intensidade inferior à da Grécia. Tal contágio se daria pelo elevado grau de integração, no que tange aos fluxos de comércio e de capital, que une os países da região. Neste sentido, é possível pensar em um programa em que o custo incorrido pelos demais países da região seja inferior às possíveis externalidades que eles sofreriam com o agravamento da crise grega. Ainda assim, há enormes dificuldades envolvidas em um acordo desta natureza. Qualquer tipo de ajuda somente teria eficácia se viesse acompanhada de condições suficientemente críveis para assegurar que o ajuste fiscal seria, de fato, implementado. Além disto, seria interessante para os demais países europeus evitar a geração de incentivos perversos para a condução da política fiscal nos países da região. Em outras palavras, seria de se esperar que houvesse um esforço para demonstrar que a irresponsabilidade fiscal é um mau negócio. Caso contrário, a ajuda à Grécia poderia incentivar novas e mais amplas crises no futuro.
A crise grega pode se irradiar por toda a Europa
A CRISE NO BLOCO EUROPEU
Há temores de que um agravamento da crise leve a um eventual calote da dívida grega e que países como Portugal, Itália, Espanha e Irlanda acabem entrando pelo mesmo caminho. Investidores observam com preocupação os cenários previstos por especialistas, como o de vários países sendo forçados a cortar drasticamente os seus gastos públicos e elevando taxas de juros para poder pagar suas dívidas, ou, pior, o de países deixando a chamada zona do euro e provocando uma dissolução da União Europeia. Por outro lado, as perdas dos bancos que emprestaram dinheiro a esses países podem levar a uma nova crise de crédito.
É importante enfatizar que as dificuldades ora enfrentadas pela Europa não invalidam um cenário ainda construtivo para a economia mundial. Por enquanto, temos um grau maior de incerteza.
Todos esses temores se intensificaram no dia 23 de abril, quando a Grécia pediu, formalmente, ajuda financeira à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional para tirar o país de sua crise de débito. O país está pedindo até 45 bilhões de euros em empréstimos de emergência aos países da zona do euro e ao FMI neste ano, mas existe a preocupação de o acordo não ser fechado ou, ainda, não ser suficiente.
No início de maio, os líderes dos países da zona do euro tinham concordado com um pacote de emergência de 30 bilhões de euros para a Grécia. Mas até que ponto essa ajuda pode resolver a crise?
Sim, até há um risco de extinção do euro, que considero muito pequeno. O mais provável é sua depreciação perante outras moedas. Nessa segunda hipótese, há uma questão vantajosa para o bloco europeu no sentido da exportação. A moeda deles estando mais depreciada irá favorecê-los como players internacionais mais fortes para a colocação de seus produtos no mercado. Isso, no meu entender, assemelha-se ao que está acontecendo também com EUA e Japão, países que deverão continuar um processo de depreciação de suas moedas para fortalecer suas posições exportadoras. Eles perderam capacidade competitiva no mercado internacional, fundamentalmente, pelo diferencial salarial que praticam em relação aos países emergentes, especialmente os do leste da Ásia. Assim, eles só poderão competir com maior vigor no comércio internacional com a depreciação de suas moedas. A meu ver, esse é um caminho quase inexorável e que será acelerado em decorrência dos trilhões de dólares emitidos para salvar seus sistemas financeiros.
O aumento no desemprego na Espanha já é preocupante Portugal também está em crise
No todo, nossa visão é de que o encaminhamento de uma solução para os problemas gregos envolverá negociações difíceis, que devem se arrastar por algum tempo. Seja qual for o desfecho, acreditamos que esta crise terá impactos negativos sobre a recuperação da Europa, embora sua intensidade ainda seja muito incerta.
É importante enfatizar que as dificuldades ora enfrentadas pela Europa não invalidam um cenário ainda construtivo para a economia mundial. Por enquanto, o que se pode dizer é que, embora o quadro mais provável da economia mundial ainda seja moderadamente positivo, temos um grau maior de incerteza. Sobretudo em crises deste tipo, há sempre uma interação maior entre questões econômicas e políticas.
Ressalto algumas lições importantes que a crise grega nos traz. Não há nada de errado em utilizar a política fiscal para tentar reduzir a amplitude do ciclo econômico, mas o espaço para a implementação de estratégias deste tipo depende crucialmente das condições iniciais. Países com baixos níveis de endividamento público e com resultados primários estruturalmente saudáveis certamente terão maior capacidade de, em períodos recessivos, utilizar a política fiscal para ativamente estimular a economia. Além disso, a crise grega nos relembra da importância da transparência fiscal: expurgos de determinados tipos de gastos e mudanças na definição da meta fiscal reduzem a capacidade dos analistas de, a partir dos dados de contas públicas, avaliarem as condições de solvência do Governo. Este tipo de opacidade pode ter impactos tão danosos quanto a piora da posição fiscal em longo prazo.

A instabilidade na Grécia pode comprometer a força da União Europeia e até a existência do Euro
ESPANHA
Ressalto algumas lições importantes que a crise grega nos traz. Não há nada de errado em utilizar a política fiscal para tentar reduzir a amplitude do ciclo econômico, mas o espaço para a implementação de estratégias deste tipo depende crucialmente das condições iniciais. Países com baixos níveis de endividamento público e com resultados primários estruturalmente saudáveis certamente terão maior capacidade de, em períodos recessivos, utilizar a política fiscal para ativamente estimular a economia. Além disso, a crise grega nos relembra da importância da transparência fiscal: expurgos de determinados tipos de gastos e mudanças na definição da meta fiscal reduzem a capacidade dos analistas de, a partir dos dados de contas públicas, avaliarem as condições de solvência do Governo. Este tipo de opacidade pode ter impactos tão danosos quanto a piora da posição fiscal em longo prazo.
A instabilidade na Grécia pode comprometer a força da União Europeia e até a existência do Euro
ESPANHA
Apesar de ter uma economia mais forte do que a da Grécia e de Portugal, a Espanha tem um problema de endividamento privado, principalmente de mutuários de empréstimos habitacionais que se viram em apuros quando a bolha imobiliária do país estourou. Os grandes bancos espanhóis são sólidos, mas há problemas nas cajas de ahorro, instituições de pequeno porte com foco em poupança e hipotecas e que sofreram um forte aumento da inadimplência. A recessão no país é profunda: a taxa de desemprego chegou a 20%; sua dívida pública, em proporção do PIB, é metade da grega (53,2%). Porém, como se trata de uma economia muito maior, em volume, o endividamento espanhol (um trilhão de euros) faria um estrago enorme em caso de insolvência e é isso que preocupa os investidores.
PORTUGAL
O país sofre com baixo crescimento há mais tempo e, além de uma complicada situação fiscal – a dívida pública, em 2009, era de 76,8% do PIB – , tem uma elevada dívida privada externa. Em fevereiro de 2010, a taxa de desemprego atingiu 10,3%.
A REPERCUSSÃO NO BRASIL
A aversão de investidores estrangeiros ao risco (compra de ativos de emergentes, por exemplo) pode dificultar a emissão de papéis (captação de recursos) de empresas brasileiras, tanto internamente como no exterior. Pode ainda acelerar a saída de dólares do país, o que tende a desvalorizar o real e, caso o movimento seja acentuado, encarecer produtos estrangeiros no país e pressionar os preços. Assim, esse parece o impacto mais provável dessa crise no Brasil, mas sem a queda abrupta de atividade sofrida há um ano e meio.
A REPERCUSSÃO NO BRASIL
A aversão de investidores estrangeiros ao risco (compra de ativos de emergentes, por exemplo) pode dificultar a emissão de papéis (captação de recursos) de empresas brasileiras, tanto internamente como no exterior. Pode ainda acelerar a saída de dólares do país, o que tende a desvalorizar o real e, caso o movimento seja acentuado, encarecer produtos estrangeiros no país e pressionar os preços. Assim, esse parece o impacto mais provável dessa crise no Brasil, mas sem a queda abrupta de atividade sofrida há um ano e meio.
A Grécia entrou em crise e pode arrastar a Europa
Resumindo os itens abordados:
Por que a Grécia está nessa situação?
A Grécia gastou bem mais do que podia na última década, pedindo empréstimos pesados e deixando sua economia refém da crescente dívida. Nesse período, os gastos públicos foram às alturas e os salários do funcionalismo praticamente dobraram. Enquanto os cofres públicos eram esvaziados pelos gastos, a receita era atingida pela alta evasão de impostos, prática generalizada no país.
Todo mundo na zona do euro – e qualquer um que negocie com esses países – é afetado por causa do impacto da crise grega sobre a moeda comum europeia.
Além disso, Grécia estava completamente despreparada quando chegou à crise global de crédito. O déficit no orçamento, ou seja, a diferença entre o que o país gasta e o que arrecada, foi, em 2009, de 13,6% do PIB, um dos índices mais altos da Europa e quatro vezes acima do tamanho permitido pelas regras da chamada zona do euro.
Sua dívida está, atualmente, em torno de 300 bilhões de euros (o equivalente a US$ 400 bilhões ou R$ 700 bilhões), o que deixou investidores relutantes em emprestar mais dinheiro ao país. Hoje, eles exigem juros bem mais altos para novos empréstimos. Essa situação é particularmente preocupante, porque a Grécia depende de novos empréstimos para refinanciar mais de 50 bilhões de euros em dívidas neste ano.
Por que a situação causa tanta preocupação fora da Grécia?
Todo mundo na zona do euro – e qualquer um que negocie com esses países – é afetado por causa do impacto da crise grega sobre a moeda comum europeia. Teme-se que os problemas da Grécia nos mercados financeiros internacionais provoquem um efeito dominó, derrubando outros membros da zona do euro cujas economias estão enfraquecidas, como Portugal, Irlanda, Itália e Espanha. Todos eles enfrentam desafios para reequilibrar suas contas.
Em março passado, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a classificação de Portugal de AA para AA-. Questões sobre o alto nível das dívidas na Europa foram levantadas em vários países.
O que a Grécia está fazendo quanto a isso?
A Grécia apresentou planos para cortar seu déficit para 8,7% em 2010, e para menos de 3% até 2012. Para alcançar isso, o Parlamento grego aprovou um pacote de medidas de austeridade para economizar 4,8 bilhões de euros. Na prática, o governo quer congelar os salários do setor público e aumentar os impostos, e ainda anunciou o aumento do preço da gasolina. Além disso, pretende aumentar a idade mínima para a aposentadoria, em uma tentativa de economizar dinheiro no sistema de pensões, já sobrecarregado.
Como essas medidas foram recebidas na Grécia?
De maneira nem um pouco positiva. Houve uma série de protestos no país, alguns violentos. As greves atingiram escolas e hospitais, além de praticamente paralisarem o transporte público. Muitos servidores públicos acreditam que a crise foi criada por forças externas, como especuladores internacionais e banqueiros da Europa central. Os dois maiores sindicatos do país classificaram as medidas de austeridade como “antipopulares” e “bárbaras”.
O que acontece agora?
A Grécia precisa de 10 bilhões de euros até o mês que vem para cumprir suas obrigações financeiras. Com o pacote da UE e do FMI, o país deve conseguir levantar essa soma, mas as condições exatas destes empréstimos ainda não foram acordadas. Se os detalhes foram definidos rapidamente e sem grandes problemas, o país conseguirá pagar sua dívida mais facilmente.
Em teoria, isso deveria proporcionar uma queda nos custos de empréstimo do governo e o euro deveria voltar a se fortalecer, depois de ter sofrido queda nas últimas semanas por causa do medo de a Grécia não conseguir pagar suas dívidas.
A Grécia poderia simplesmente abandonar o euro?
Operadores de câmbio já demonstraram medo de que alguns países com grandes déficits no orçamento – como a Grécia, Espanha e Portugal – possam se sentir tentados a abandonar o euro. Ao deixar a moeda comum, o país poderia permitir a desvalorização de sua moeda e, assim, melhorar sua competitividade. Mas isso também causaria grandes rupturas nos mercados financeiros, provocando o medo de que outros países adotassem a mesma estratégia, e que houvesse o fim da união monetária. Por outro lado, a União Européia já demonstrou que quer manter a zona do euro unida e descartou a ideia de que países abandonem a moeda.
Como a situação da Grécia se compara a de outros países?
A Grécia não é o único país da zona do euro a violar a regra que afirma que o déficit orçamentário não deve ultrapassar 3% do PIB do país. Na Grã-Bretanha, que não está na zona do euro, esse déficit chega a 13% do PIB. Na Espanha, ele chega a 11,2%, na Irlanda a 14,3% e na Itália a 5,3%.
Rui Alves Gomes de Sá é engenheiro e Diretor de Ensino do Grupo pH
Rui Alves Gomes de Sá é engenheiro e Diretor de Ensino do Grupo pH
Crise faz gregos criarem sociedades alternativas do século 21
Atualizado em 21 de agosto, 2012 - 05:08 (Brasília) 08:08 GMT
Nenhum comentário:
Postar um comentário